Considerado um fracasso de bilheteria e destroçado pela crítica, esta foi a única incursão de Charles Laughton por trás das câmeras. Muitos fatores marcam a singularidade de O mensageiro do diabo: filme inclassificável, totalmente distinguível das produções coevas, regido por tons surrealistas, que evoca a inocência infantil num contexto de brutal pobreza dos anos 1930, conjugando entretanto beleza e horror. E é possível imaginar as repercussões de um filme que critica o cristianismo nos Estados Unidos em plena Depressão. Este é, sem dúvida, um dos filmes mais sombrios da história cinematográfica. Mas é por sua relevância artística que esta obra-prima tardiamente reconhecida lega ao cinema uma herança incomensurável.

Um dos maiores vilões do cinema de todos os tempos, lobo em pele de cordeiro, golpista carismático, sexualmente reprimido, mas com provocativas insinuações pedófilas, serial killer que posa de pregador, falso reverendo misógino que se casa com viúvas, pelo dinheiro delas, e mata-as: este é Harry Powell (Robert Mitchum), um detento que descobre que seu companheiro de cela, condenado à morte, escondeu 10 mil dólares em algum objeto em sua casa. Após sair da penitenciária, ele vai atrás da grana. Na West Virginia, encontra a viúva Willa (Shelley Winters) e seus dois filhos. Em pouco tempo, ele seduz e se casa com sua mais nova vítima, que viu o marido morrer enforcado, acusado de assassinato.

O filme é baseado no romance The Night of The Hunter (1953), de Davis Grubb, que, por sua vez, foi inspirado na história verídica de Harry Powers, criminoso responsável pela morte de duas viúvas e três crianças, e enforcado em 1932. Com uma trama bastante simples, é a sua atmosfera sombria que faz de O mensageiro do diabo (1955) bem mais que mero filme de suspense/terror. Esteticamente herdeiro do expressionismo alemão, cruzam-se neste filme o conto de terror que trata do medo abissal do ser humano e a excelente direção de fotografia de Stanley Cortez, tornando o longa visualmente estonteante. O uso da luz é uma arte à parte, que torna icônica, por exemplo, a cena em que a figura de Robert Mitchum é iluminada por uma lâmpada na rua, gerando sombras no quarto das crianças.

Ele poderia ser entendido como um conto de fadas às avessas, espécie de pesadelo influenciado pela literatura gótica americana, um elo de histórias sobre fantasmas ou simplesmente uma fábula que focaliza os medos no imaginário infantil. Ao mesmo tempo estranho e idiossincrásico, este thriller noir mistura os mais lúgubres elementos de histórias infantis e filmes de terror: a morte, a ganância, a crueldade, referências bíblicas e o mais assustador bicho-papão que não desiste de ir no encalço das crianças.

Depois que John (Billy Chapin) e Pearl (Sally Jane Bruce) perdem seus pais, começa uma tensa perseguição, na qual ambas as partes conservam seus segredos: Powell esconde seu passado enquanto John segue determinado a proteger sua irmã e a escapar de um psicopata que os demais consideram virtuoso. Para John e Pearl, parece ter sido mais atemorizante do que se tivessem se deparado com fantasmas. Talvez John descreva uma das mais importantes trajetórias como personagem, porque a ele cabe a tarefa – dificílima tarefa, devo dizer – de perceber, sozinho, os verdadeiros motivos de Powell. Da inocência à sagacidade, ele precisa crescer, e rápido, em meio às mais sinistras circunstâncias, e saber lidar com a hipocrisia e estupidez dos adultos que o cercam, mas sobretudo com seu novo “pai”, que finge ser amável.

Rachel Cooper, uma rígida e bondosa senhora, acolhe John e Pearl na sua casa já povoada por outras crianças abandonadas. Para vencer o mal, ela reconstrói-se do sofrimento que suportou no passado, abriga e educa crianças órfãs, imbuindo-se de uma espingarda carregada. Estrela do cinema mudo, Lilian Gish costumava interpretar mulheres frágeis, vítimas da crueldade dos homens, o que acaba por acontecer, neste filme, à mãe de John e Pearl, enquanto Rachel Cooper é, ou precisa ser, extremamente forte. De fato, a leitura do filme torna-se mais completa se pensar no híbrido Lilian Gish-Rachel Cooper. Explico: logo na primeira cena, a história parece ser apresentada por Lilian Gish-Rachel Cooper. Sobre um fundo de uma noite estrelada, a atriz-personagem dirige-se a cinco meninas cujas cabeças se destacam da noite. No fim, a cena se repete, como se fosse ela a contar a história do princípio ao fim, de acordo com a sua perspectiva. Pensem (ou lembrem-se) na/da terna e durona avozinha que conta histórias de ninar. Assim o filme torna-se mais complexo, porque a narradora é também protagonista da história. E é também por esta razão que O mensageiro do diabo é tão singular, porque oferece ao híbrido atriz-personagem, que só existe naquela ambiência fictícia, o privilégio de dar o tom à história, de dar-lhe presença. E esta força tão iminente e tão singular na atriz e na personagem acaba por ser transmitida às crianças, já que é ela quem (re)aparece e liberta-as do carrasco. Lilian Gish-Rachel Cooper é onipresente.

Harry Powell (com uma extraordinária performance de Robert Mitchum) personifica o mal que se mantém à sombra, à sua própria inclusive, por viver na obscuridade e criar uma atmosfera misteriosa com seu ar sedutor, não permitindo que os demais vejam quem ele realmente é. Mas o filme inteligentemente dissolve, de certa forma, aquele maniqueísmo tão explícito em contos infantis. A explicação para as tatuagens nos dedos é provavelmente a cena mais conhecida, comentada e revisitada da história dos filmes noir, transformando LOVE X HATE num pop hit.

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