os-amantes-passageirosCinéfilos e apaixonados pela filmografia de Pedro Almodóvar já perceberam decerto que a sua obra é recheada por uma complexa rede de citações. Rebeca (Victoria Abril), num diálogo entre mãe e filha em De salto alto (1991), faz uma referência direta ao argumento de Sonata de Outono (1978), de Ingmar Bergman. Carne trêmula (1997) cita uma cena de Ensaio de um crime (1955), de Luis Buñuel. No início de Tudo sobre minha mãe (1999), Esteban (Eloy Azorín) e Manuela (Cecilia Roth) assistem a A malvada (1950), de Joseph L. Mankiewicz. Já no final de Volver (2006), enquanto toma conta de Agustina (Blanca Portillo), Irene (Carmen Maura) assiste à televisão em cuja tela surge a imagem de Maddalena Cecconi (Anna Magnani) a pentear os cabelos em Belíssima (1952), de Luchino Visconti. Em Abraços Partidos (2009), Mateo Blanco / Harry Caine (Lluís Homar) reconhece a voz de Florence Carala (Jeanne Moreau) em Ascensor para o cadafalso (1958), de Louis Malle.

Em seus últimos filmes, no entanto, Almodóvar vem bebendo da própria fonte. É exemplo de referência interna a história do retorno da mãe cujas filhas pensavam que ela tivesse morrido num incêndio e passam a ver o seu regresso como a aparição de um fantasma que vem esclarecer questões do passado. Este enredo corresponde ao argumento de Volver e à trama de um romanceco de segunda categoria escrito por Amanda Gris (pseudônimo de Leo Macias), interpretada por Marisa Paredes em A flor do meu segredo (1995). O argumento de Volver já estava, onze anos antes, no roteiro ridicularizado sobre a dificuldade de se desembaraçar de cadáveres – ou sobre fantasmas que voltam para resolver coisas que não podem ser resolvidas, ou para fazer coisas que não foram feitas, afinal, sempre se deixam coisas por fazer. Outra citação interna consiste no apartamento de Pepa (Carmen Maura) em Mulheres à beira de um ataque de nervos (1988) cuja atmosfera cenográfica é reproduzida em Chicas y maletas, filme interrompido pelo cineasta Mateo Blanco / Harry Caine (Lluís Homar), em Abraços partidos (2009). Ou ainda a cena inesquecível da preparação do gazpacho em Mulheres à beira de um ataque de nervos evocada em A vereadora antropófaga (2009), monólogo de Carmen Machi (curta-metragem que integra o longa de 2009).

Os Amantes Passageiros (2013) fala do medo da morte. Não é isto o que sugere uma primeira leitura, mas pode ser essa a consequência para os passageiros de um avião que ameaça cair a qualquer momento. Dentre eles, é focada entretanto a classe executiva que simboliza uma “elite” composta por uma dominatrix decadente, um galã de novela mexicana, um banqueiro falido e uma pós-balzaquiana virgem que se aproveita de um passageiro da segunda classe, já que a segunda classe foi dopada pelos comissários de bordo para suportar um voo em círculos. Completam o circo dois pilotos enrustidos e três comissários extravagantes. Tudo isso num único cenário: um avião que, ao invés de cumprir sua rota da Espanha ao México, dá voltas no ar devido a um problema de pouso. Está clara a metáfora política, a crise econômica europeia, como muitos associam, e até mesmo a questão existencial, se quiserem: passageiros de uma nave a esmo. Aqui também se mesclam outros elementos de Almodóvar, que remetem aos seus primeiros filmes, ligados ao movimento de contracultura La movida madrillena pós-franquismo. Em películas como Labirinto de paixões (1982) e Maus hábitos (1983), drogas, sexualidade e moralismo institucional (Família e Igreja) são temáticas lúdica e ironicamente abordadas. Propositalmente nonsense, quase à beira da histeria, o filme recorre à comicidade mais escrachada para falar, na verdade, de crises, alienação e hipocrisia. Mas não me parece que a crítica se restringe à sociedade espanhola. Bem longe de ser um dos melhores trabalhos do mestre Almodóvar, Os amantes passageiros não deixa de ser, com todos os altos e baixos, uma obra de arte.

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