A história da vida de João Carlos Martins é hollywoodiana e não haveria como o filme-biografia sobre o pianista ser diferente. Considerado um prodígio do piano que conquistou fama internacional, a história de vida do pianista, virou filme dirigido e roteirizado por Mauro Lima e protagonizado por Alexandre Nero que faz o pianista dos 35 anos até os dias de hoje. Confira a entrevista com o diretor e roteirista do filme “João, O Maestro”.

Assim como “Meu nome não é Johnny” e “Tim Maia” , “João, O Maestro” assume o papel de uma biografia, como é levar para telas a história real do maestro João Carlos?
A possibilidade de fazer um filme em torno de um piano, que é o instrumento que mais me fascina e também quando descobri as narrativas “épopéicas” presentes na vida do João Carlos Martins. Essa história mereceu virar filme porque é uma boa história. Eu tinha algum conhecimento da história e da importância dele como músico porque estudei com um dos filhos dele no maternal, mas não tinha ideia da importância dele no mundo da música clássica internacional desde os anos 60.

Biografia Vs. Homenagem. Quais foram as dificuldades de criar um roteiro em cima da história do maestro? Ele ajudou na construção do roteiro?
Tive alguns encontros com o maestro, foi uma fase produtiva e interessante. No primeiro encontro, ele já tinha uma ideia do que deveria ser a estrutura de uma boa tradução dele próprio para as telas; as passagens da sua vida que pudessem dar boas sequências do ponto de vista dramatúrgico e, ao mesmo tempo, defini-lo da melhor forma para uma possível audiência. Foi curioso descobrir, logo nos primeiros 10 minutos, que, não só ele não era aquele sujeito sisudo que eu imaginava, mas era divertido, disponível e com muita autoironia.

Você se propôs a conduzir a trama com uma dimensão heroica do maestro João Carlos?
Quis mostrar como a vida foi implacável com ele em momentos específicos e a vocação dele para processos de resiliência. A história me lembra o Prometeu acorrentado. Cada episódio vindo do inesperado ou do esperado, seus estragos e o modo como ele desafiou e negou um destino aparentemente imposto a ele pela sorte, pela vida ou Deus… na falta de melhor verbete.

Você leva as telas o crescimento e o amadurecimento de um menino recluso. Como foi o processo de construção do personagem nas diferentes fases?
A maior dificuldade, no caso, é alinhar quatro pessoas; três atores diferentes com o biografado, ao mesmo tempo em que se alinha esses três atores entre si. Afinal, todos eles são a mesma pessoa, que é um indivíduo de fora da tela. Entretanto, dentro da tela, os três são, cada um, uma soma deles três.

Rodrigo Pandolfo vive o músico dos 15 aos 30, mas é o pequeno Davi Campolongo, o ator de 11 anos selecionado entre 50 crianças para viver o maestro na infância, a grande revelação, que por conta do personagem, resolveu aprender a tocar piano.

Você é diretor e roteirista do filme, você consegue diferenciar as duas funções no set de filmagem?
Não. E nem antes. Na realidade, se você lê um roteiro escrito por mim, percebe como eu já estou dirigindo na própria redação. Muito do que eu quero pra o set já vem adiantado no papel.

Qual é o maior simbolismo da trama de “João, O Maestro”?
Na minha opinião é psicanalítico mesmo. Acho que a relação dele com a suposta “compulsão”, digo suposta porque nuca enxerguei como um fenômeno de natureza compulsiva, tem um fundo freudiano. O modo como ele deixa de ser o garoto retraído e tímido da infância pra uma figura tão magnética e expressiva no momento em que começa a se relacionar com as mulheres de maneira mais íntima.

Qual a importância da trilha sonora no filme?
Fundamental. Inclusive foi um dos desafios maiores transpor para a tela aquela experiência catártica. Vi um agente americano de músicos eruditos falando sobre o João em um documentário alemão. Ele disse que a primeira vez que viu João tocando comparou com a imagem de uma mulher em trabalho de parto, tamanho o poder e beleza da experiência.

“Reis e Ratos” foi um projeto experimental, deu para levar para “João, O Maestro” um pouco da estética dele?
Não sei se consigo não levar um pouco da minha própria estética pra todo filme que faço, talvez pra tudo que faça… Talvez até um ovo mexido que eu faça acabe levando um pouco dessa estética. Em algum lugar eles tem alguma consanguinidade. Mas você tem razão, se algo foi experimental na minha vida foi esse filme. Tão experimental que os amantes do “experimental” tampouco entenderam a experiência… Ou experimento, se preferir.

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