Guanabara, Maracanã, Ipanema, carioca. Além de palavras de origem tupi, o que mais restou de registro da presença dos índios no Rio de Janeiro? Em 1567, a Batalha de Uruçumirim, liderada por Mem de Sá, exterminou as tribos indígenas que ali viviam. Após 450 anos, o diretor Marco André Nunes e o dramaturgo Pedro Kosovski, da Aquela Cia., pesquisaram as raízes da fundação da cidade para a concepção da peça Guanabara Canibal, que estreia no CCBB-Rio, no dia 9 de agosto. A temporada será de quarta a domingo, às 19h30, até 15 de outubro.

“Guanabara Canibal” dá continuidade à investigação cênica e dramatúrgica da história da cidade do Rio de Janeiro, que teve início com o espetáculo “Cara de Cavalo”, em 2012, sobre a extinta favela do Esqueleto, atual UERJ, nos anos 60; e seguiu com “Caranguejo Overdrive”, em 2015, sobre o antigo mangue que foi aterrado no final do século XIX, atual Praça XI.

A peça  retorna às origens ao olhar para a fundação da cidade, tendo como referência para a construção da dramaturgia a literatura quinhentista, que inclui os relatos dos cronistas franceses Jean de Lery e André Thevet, que acompanharam a formação da colônia França-Antártica, no Rio de Janeiro, e o poema “De Gestis Mendi de Saa” (“Feitos de Mem de Sá”), do padre José de Anchieta, que narra a ofensiva portuguesa contra os tupinambás e ocupação francesa na cidade. “A pesquisa feita para a criação de ‘Cara de Cavalo’ e ‘Caranguejo Overdrive’ nos estimulou a continuar a investigação acerca da nossa própria história. Ao reler ‘O Povo Brasileiro’, de Darcy Ribeiro, me deparei com um poema de José de Anchieta sobre os feitos de Mem de Sá durante as batalhas que dizimaram várias aldeias tupinambás e consagraram o domínio de Portugal sobre o nosso território”, lembra Marco André Nunes. “Além do poema, outros documentos históricos sobre a batalha revelam um passado de guerra e violência”.

A dramaturgia de Pedro Kosovski, assim como nos trabalhos anteriores, apoia-se nessa paisagem histórica para narrar questões urgentes para atualidade e rever criticamente nosso passado, “o modo como nos relacionamos com nossa memória coletiva e a nossa história é quase sempre predatório e submisso às versões oficiais. Havia cerca de oitenta aldeias indígenas no entorno da baía da Guanabara, uma população com milhares de habitantes: onde estão os monumentos e as narrativas sobre a intensa vida nesse território antes da sua colonização?”, questiona-se Kosovski.

Antes da fundação do Rio de Janeiro, a terra era de domínio de tribos indígenas, que apesar de rivais, falavam a mesma língua e tinham costumes semelhantes, como o ritual de canibalismo: por vingança, a tribo capturava um rival e este passava a conviver com eles até o dia de sua execução, que era visto por todos como uma morte digna. Diferente do que aconteceu com a chegada dos portugueses, na Batalha de Uruçumirim, travada nas águas da Guanabara, na altura do Outeiro da Glória, expulsaram os franceses do território e exterminaram os índios que ali viviam. “Foi como uma força de ocupação, um exército invadindo uma terra que não lhe pertence”, ressalta o diretor.

Assim como nos espetáculos anteriores, a música está sempre presente na cena, na direção musical de Felipe Storino. Em versões acústica, eletrônica, com coro, percussão, piano, microfones e tecnologia. Também compõem a encenação elementos primários como terra, água, farinha e pó de urucum.

“O CCBB Rio reconhece a importância de tratar da história da fundação da nossa cidade e é com satisfação que recebemos a montagem inédita da Aquela Cia., um espetáculo que toca o espectador e permite a reflexão sobre aspectos do Rio”, destaca Fabio Cunha, gerente geral do CCBB Rio de Janeiro.

SERVIÇO
Espetáculo: Guanabara Canibal
Temporada: 9 de agosto a 15 de outubro de 2017
Dias e horários: Quarta a domingo, às 19h30.
Local: CCBB Rio – Teatro 3 (Rua Primeiro de Março 66 – Centro).
Capacidade: 70 lugares
Classificação indicativa: 14 anos.
Gênero: Drama
Ingressos: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia)
Duração: 80 minutos.

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