1982. Início da década perdida para muitos países, início da década de abundância para outros. Da infestação de cocaína nas grandes metrópoles globais ao princípio do fim de governos ditatoriais nos países do terceiro mundo. O choque cultural entre as novas tecnologias e o velho pensamento consumista marcou os anos 80, quando a sociedade aos poucos percebeu que algo estava errado com ela desde meados da década de 70.

A Guerra Fria entre os EUA e a URSS chegava ao mais alto ponto crítico desde a crise dos misseis em 1962, quando a deterioração das relações entre os dois países ficava cada vez mais evidente. Eleito presidente dos EUA em 1981, Ronald Reagan era um crítico ferrenho da URSS, no qual categorizava-os como “império do mal”, além de defensor de ações militares mais severas contra eles. Do outro lado havia o secretário geral do partido soviético, Iúri Vladimirovitch Andropov que além de empreender a continuidade da invasão soviética no Afeganistão (repudiada pelos EUA) aprovou a instalação de mais misseis na borda da Europa oriental, apontados para países da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte).

O meio cultural também espelhou o sentimento da época. Se nos anos 50 e 60, o grande sonho para com o futuro era a utopia mundial, sem conflitos e com a ficção cientifica não mais como ficção mas como uma realidade do dia a dia (com carros voadores, viagens espaciais e empregados robôs) na metade dos anos 70 esse sentimento mudou. O futuro ainda reservava avanços inacreditáveis na tecnologia mas seu tom era outro. Saía a inocência e entrava a crítica à governantes, politicas raciais, proliferação de conflitos e ideologias da esquerda e direita.

Dois anos após a space ópera, crítica de George Lucas ao fascismo um jovem diretor britânico surgiria com um trabalho mais tímido mas com muito a se dizer. Em Alien (1979) Ridley Scott colocou a tripulação da nave cargueiro “Nostromo” em conflito com uma criatura mortal. Nostromo é representada como uma nave colossal, constantemente à deriva no espaço e internamente escura, com tubulações a mostra e úmida. A inteligência artificial a bordo era traiçoeira, assim como os robôs. Era a tecnologia sem qualquer glamour mas sim com um aspecto gótico próprio, tão ameaçador quanto o iminente apocalipse nuclear.

O sucesso dessa obra colocou Scott no comando de um novo projeto de ficção cientifica. Em 1982, chegou ao mundo Blade Runner, estrelado por Harrison Ford. Alien representou a crescente força da mulher na sociedade com sua protagonista feminina forte e os perigos do espaço, no entanto sua crítica não era direcionada a sociedade como um todo, faltava um projeto para tanto. A ambientação de Blade Runner se daria na então longínqua Los Angeles de 2019, que abraçaria o futuro tecnológico imaginado no passado mas com algo de errado.

Em 2019 não há mais utopia. A humanidade chegara ao seu ápice com a colonização interplanetária e a modernização do dia a dia. A vida passou a ser um produto a serviço da globalização, os enormes arranha-céus expõe propagandas de empresas privadas, vendendo serviços que anestesiariam o cidadão comum ao mesmo tempo em que essas mesmas empresas assumiriam o controle do mundo com a falência dos governos.

Em Los Angeles, por exemplo, o excesso de produtos orientais evidenciaria o milagre econômico japonês na década de 80 junto com a oferta incomparável de mão de obra barata vinda da China. A questão da superpopulação se torna evidente também, com as ruas entupidas de pessoas (a ponto de se sentir claustrofóbico) e com os mais variados comércios menores ocupando cada centímetro quadrado.

No entanto, tudo isso seria ínfimo perto da obsolescência do conceito de “Deus” como algo inalcançável. Tendo tecnologia avançada, o setor privado se torna capaz de produzir vida humana ( conhecidos como replicantes) em escala industrial para servir de mão de obra descartável, tais como os operários da revolução industrial. A eventualidade de um ou outro se rebelar contra o sistema obriga a polícia a utilizar agentes treinados para elimina-los, isso não seria ‘assassinato’ mas sim ‘descarte’. Eles se chamariam então ‘Blade Runners’.

Mas o que definiria esses humanos nascidos em laboratórios e sem propósito na vida que não seja servir? Como eles encontrariam uma identidade em uma sociedade que vendera sua própria em troca do “futuro”? Assim como o jovem que saía de uma década marcada pelo controle rígido e se dirigia para um período indefinido pelo surgimento dos computadores e cuja a individualidade seria exaltada pelas marcas, os replicantes são mais do que qualquer coisa representações do homem acorrentado pelo interesse de grupos empresariais.

Sua existência só é válida quando está de cabeça baixa, seu trabalho é sua vida e sua importância para ele é descartável, lhe tire isso e sua utilidade para o grupo social passa a ser praticamente zero. Como dito pelo chefe de policia: “se você não está com a polícia, então é da escória”.

No futuro em que a vida passa a ser produto e sua morte um descarte, talvez o único milagre que reste ao homem seja o nascimento natural. Como é enfatizado em “ Blade Runner 2049”, o ato da concepção desejada e de possuir uma linhagem genética antecessora é o que lhe define como ser natural, pensante e, portanto, independente.

No fim os anos oitenta passaram, a Guerra Fria passou, a paranoia nuclear esfriou. Todas as chuvas que caíram dispersaram a sujeira acumulada nas ruas dessa enorme aldeia global. As luzes neon dos prédios deram lugar às telas gigantes de LCD´s, os monitores de computador cada vez mais passam a bola para smartphones e a comunidade física passou para o virtual. Enfim, a grande mensagem de Blade Runner nada mais é que no fim todas as lagrimas se esvaem na chuva.

 

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