Elisa é uma mulher simples, nos anos 50, que trabalha na limpeza de instalações do governo, durante a guerra fria. Elisa é muda, mas há uma sensação de incompletude que a perpassa enquanto somos apresentados à sua vida e sua repetitiva rotina. Uma sensação de que o que falta é muito mais do que sua voz.

A construção do primeiro ato, que delimita as relações de Elisa, nos convida a entrar no seu universo e o tempo que leva para nos encantarmos com ela e sua dinâmica, não só no trabalho, mas com seus amigos, é curto, então, quando por fim, o diretor, Guillermo Del Toro, nos introduz o que de mais estranho e secreto está acontecendo dentro desses laboratórios, já estamos mais do que mergulhados na história, fazendo com que tudo pareça se encaixar perfeitamente e a presença da “criatura” não parece, de forma alguma, absurda.

Sally Hawkins está perfeita. Toda sua construção de sentimento, de cada emoção, dúvida, ironia, desespero, dor, prazer, tudo sem emitir uma única palavra são, simplesmente de aplaudir de pé. E a indicação da atriz ao Oscar é muito mais do que merecida. Os personagens que compõe o universo de Elisa, a Zelda de Octavia Spencer e o Giles de Richard Jenkins, são essenciais e suas atuações primorosas. Inclusive, suas subtramas, principalmente a de Richard Jenkins, são excelentes e acrescentam aind amais profundida e camadas a história.

O vilão de Michael é mais do que a personificação do mal, o roteiro é tão bem pensado que, apesar de não sermos capazes de concordar ou torcer por ele, somos sim capazes de entender o porquê de seu comportamento e suas motivações, saindo um pouco da fácil e entediante dicotomia bem x mal, simplesmente. Fica claro que todas as questões, abordadas pela história, são mais complexas e ganham profundidade. O roteiro é muito bem escrito e bem amarrado, o que contribui para que o filme flua com naturalidade em uma crescente de tensão e sentimento.

Del Toro é um gênio do design de produção e tudo que ele conseguiu realizar nesse filme visualmente é inacreditável, principalmente, se levarmos em conta o limitado orçamento de 20 milhões. A direção e a fotografia se coordenam de forma majestosa na construção do filme que é uma obra prima visual.

A única coisa que pode ser considerada o ponto fraco do filme é o final do terceiro ato que acaba sendo previsível e até um pouquinho brega, mas, a verdade é que, não há nada de errado nisso. As histórias de amor tem toda a licença do mundo para serem bregas e nem sempre precisamos de reviravoltas mirabolantes.

O filme é delicado e intenso e apesar de possuir elementos de violência, característicos do diretor, com a inversão da noção de monstruosidade materializada sempre numa figura diferente do monstro, é uma belíssima e envolvente história de amor, que nos faz refletir não só sobre nossos conceitos de bem e mal, mas sobre aquilo que precisamos para por fim nos sentirmos inteiros.

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