O que te levou a fazer um filme sobre Cora Coralina?

Eu venho do Coletivo paulista chamado Olhar Eletrônico, de 1983, com Marcelo Tas, Fernando Meirelles, Marcelo Machado, eram todos estudantes, cada um numa área. E a Cora Coralina estourou exatamente, entre 1983 e 1985. A crônica de Carlos Drumond foi de 1980, no Jornal do Brasil. E nessa época do Olhar Eletrônico, a Cora foi para São Paulo lançar um livro e a gente agendou uma entrevista com ela, esse foi meu primeiro contato. Depois eu comprei os três livros dela, devorei rapidamente. Antes de eu me mudar para Brasília, eu fui a Goiás, já era documentarista, viajava muito. E ai, fui a Goiás Velho, conheci aquela casa que ainda não era Casa-Museu, era semiabandonada. Ou seja, eu tive uma imersão no universo de Cora Coralina no inicio dos anos 80 até os inicio anos 90. Ai, em 2012, o neto dela o Paulo Bretas Salles, que é um cara importante como guardião da memoria. Dos netos é ele que tá na ponta de lança, entre os principais guardiões. E ai ele convidou o Marcio Cury, produtor muito experiente de Brasília, que já era meu parceiro de longa data. Eu já era biografo, cine biografo, já tinha feito cinco cinebiografias.

Dentre as biografias que você já fez, a Cora Coralina tem uma  narrativa diferente, que mistura documentário e ficção. O que te levou a seguir esse caminho?

Com certeza, primeira mulher. Além de documentário tem muita ficção, né. Na verdade, eu entendo que tem três eixos ali, o documental, ficcional e o poético. Quando eles me convidaram, aquilo chegou para mim com uma força, sabe, eu já me encantei. Veio toda aquela memoria que eu tinha, a minha ligação com a Cora desde os anos 80 e os 90, né. E ai, me veio tudo aquilo e fui atrás dos livros, sai catando os livros da Cora, já não lia há anos. E ai, eu falei para eles, que topava, mas com uma condição, que era fazer o roteiro também. Exatamente, por causa disso, para criar uma estrutura inventiva e poética. Ai eu convidei uma artista plástica, Regina Pessoa de Brasília para me ajudar nessa missão, onde eu também buscava um olhar feminino.

Esse olhar feminino te ajudou a ir para um lado mais poético ou mais visceral?

Olha, esse olhar me ajudou a ir mais para o essencial, sabe, o poético já estava implícito, e foi tudo em cima do livro “Raízes de Aninha”, de Clóvis Brito e Rita Elisa Seda, que é um livro fantástico, com uma pesquisa histórica, reflexiva, filosófica, muito, muito rica. O livro me deu de bandeja informações que eu não tinha como as leituras da modernidade, o conservadorismo e como a Cora rompeu essa barreira.

A gente também teve acesso a varias pessoas, e nisso a Regina Pessoa me ajudou muito, em chegar nessas pessoas que conviveram com a Cora, que tem a memoria desse convívio, isso foi superimportante e num aspecto que a gente conhece pouco. A Cora se tornou conhecida, já morando em Goiás Velho, só que ela passou 45 anos no Estado de São Paulo, isso pouca gente sabia. O filme traz isso muito bem.  E a gente também teve uma pesquisa iconográfica na casa museu com os arquivos em vídeo, de cinema, as fotos e os documentos, tudo muito bem organizado, aliás, o que ajudou muito em acelerar o processo.

São as vozes de Cora Coralina, de cara já me veio essa ideia, e a Regina compartilhou desse pensamento comigo de que teriam varias vozes femininas, de várias idades diferentes por que Cora fala por muitas mulheres. Dai já surgiu à estrutura da polifonia de Cora Coralina, que já usei numa vídeo instalação, chamada “A língua da língua” que eu fiz junto com o Fabiano Maciel. Eu gostei muito dessa experiência de texturas sonoras, sensorialmente é muito rico também e casou perfeitamente com a estrutura poética do roteiro.

A Cora é uma personagem muito importante dentro da literatura e uma mulher além do tempo.

Isso! É importante dentro do filme isso também. Além da Cora escritora, poeta e doceira, conhecida do grande publico, a gente trouxe também a Cora ativista, franciscana, ambientalista, que tem um trabalho social importante. Isso para gente também foi importante, revelar essa Cora multifacetada.

Você insere na montagem grandes atrizes e de idades diferentes, teve um processo de teste, como foi à escolha dessas atrizes?

Muito legal essa pergunta. No roteiro a gente já definiu essas diferentes mulheres e que também a gente não ia querer ficar preso ao fenótipo da Cora, né, mas a gente explodiu trazendo Zezé Motta, Beth Goulart, Tereza Seibilitz, enfim, a Valderez já traz um tipo físico, um jeito mais parecido com a Cora. Mas, o importante era trazer atrizes potentes, que tivessem alguma coisa em comum com a Cora, que é a integridade. A Cora é muito verdadeira, né, ela não deixou a vaidade fragmenta-lá, ela foi muita essência, e a gente queria atrizes que passassem isso, que juntem vida e arte. Foi um critério importante, das mais novas às mais velhas.

Acredito que seja bem visceral…

Bem, visceral, é uma boa definição. Exatamente, você definiu bem, foi bem visceral. Eu me senti um privilegiado em trabalhar com essas mulheres. Elas me surpreendiam o tempo todo.

*entrevista feita por telefone

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