Crianças correm de um lado para outro emitindo sons e brandindo bastões coloridos, algumas estão vestidas com longos, para sua altura, trajes marrons e outras banhadas em maquiagem verde que cobria o rosto. Os adultos seguem a mesma tendência, trajando o mesmo traje marrom e portando os mesmos bastões. Uma visão que certamente poderia ser confundida com um bloco de carnaval, mas que na verdade era algo além, uma tradição passada de pai para filho desde 1977 quando, pela primeira vez, o mundo se assombrou com a extensão de um destroyer imperial.

Star Wars confundiu-se muitas vezes no imaginário popular, afinal ele é aquele filme do Darth Vader? Uma ficção cientifica? Uma Space Opera? Uma marca bilionária? Na verdade, são todas as respostas anteriores. A ideia do então cineasta iniciante George Lucas era a de realizar uma aventura despretensiosa para a Summer Season do cinema americano e, de preferência para o estúdio, que fosse de baixo orçamento. Seu amigo Steven Spielberg havia tido um grande sucesso comercial dois anos antes com Tubarão e remodelado as grandes produções do cinema de verão.

Outra motivação para Lucas era sua paixão por automóveis e pelas histórias de “Flash Gordon”. Em sua mente seu desejo era o de conseguir unir as altas velocidades desses carros com toda uma mitologia espacial, digna não só do já mencionado herói como também da clássica série de TV “Star Trek”. Seus esboços iniciais eram confusos, não só misturavam elementos das referências já citadas como também fincavam raízes na cultura oriental dos samurais.

Seu universo não seria apenas pautado em tecnologia, mas também deveria ter como norte a questão espiritual. Com base nisso nasceu à ideia da ‘ Força’ que é uma forma de energia produzida por todos os seres vivos e que seria responsável em manter o equilíbrio na galáxia. Para lidar com a narrativa criada entorno dessa energia, Lucas desenvolveu a ordem dos cavaleiros Jedi, guerreiros pautados no ideal de verdade e justiça que manipulariam a força para fins pacíficos, inspirados sobre tudo nos já citados samurais e seus códigos de honra individual e de proteção a população.

Entretanto, era preciso haver Trevas para contrabalancear com a Luz. Inspirado em regimes ditatoriais que permearam a primeira metade do século XX e em governos autoritários que se proliferavam em países do terceiro mundo durante a Guerra Fria foi criado o Império Galáctico, um governo centrado no culto ao imperador e que supriria qualquer sinal de democracia na galáxia. Alguns de seus membros também teriam fortes ligações com um lado mais sombrio da força e, ao contrario dos Jedi, seu único código seria o de seguir seus desejos e não medir esforços na busca pelo poder.

O nome de George Lucas carregava certa confiança até então, o cineasta vinha do sucesso American Graffiti ( filme esse que revelou Harrison Ford) e o estúdio achou que talvez valesse a pena investir na ideia do jovem. Entretanto, o acordo estabelecido entre ambos determinava que o estúdio cuidasse apenas da distribuição e cobertura básica do orçamento da obra enquanto Lucas ficaria a cargo de terminar o filme no prazo. Ele aceitou, mas determinou que gostaria de ter direito total sobre a marca. Decisão acatada pelos produtores.

Gravando a maior parte das filmagens no intenso calor do deserto tunisiano, Lucas e o elenco formado por atores jovens e desconhecidos, com exceção do premiado Sirs Alec Guisness, enfrentaram atraso na produção, rombos no orçamento e a cada vez maior impaciência do estúdio em conferir o material final. Como qualquer filme independente, Star Wars precisava ser finalizado do jeito que for e com o material que havia em mãos.
Foi pura paixão, talvez essa seja a palavra que descreva a durabilidade de um produto criado a partir de rascunhos de várias ideias, problemas na produção, pouca importância dada pelos responsáveis financeiros. Lucas sabia que não só o visual era importante mas que o publico deveria ter sua audição condicionada a receber a emoção da obra. Foi no compositor John Williams que George Lucas confiou a ideia de complementar sua narrativa a nível sonoro. Williams então concebeu obras como a trilha de abertura responsável pelas letras amarelas surgindo em escalada, “Force Theme” que simbolizaria a relação do protagonista Vs. Força, dentre outras.

O roteiro, escrito pelo próprio diretor, deveria fazer jus a característica mais emblemática de qualquer ficção cientifica, a critica social. A divisão na galáxia entre Aliança Rebelde e Império representaria o ideário da geração setentista, aonde eles se viam como forças de oposição à pressão capitalista conservadora de gerações passadas. Para esses jovens já não bastava mais casar, arrumar um emprego, ter filhos ou comprar uma casa, eles buscavam uma identificação própria, uma autoafirmação ao que eles viam como o lado sombrio da vida representado no conformismo que seus pais se agarraram.

O conflito nuclear quase iminente entre Estados Unidos e União Soviética também foi o empurrão para a criação da mais emblemática arma imperial, a estrela da morte. Com o poder de aniquilar um planeta inteiro, essa estação espacial representava os mísseis nucleares que as duas potências acumulavam cada vez mais em quantidades recordes e que em um piscar de olhos poderiam destruir o mundo.

Este texto poderia falar sobre a estreia de Star Wars no verão de 1977, sua arrecadação e prêmios conquistados, mas isso seria ressaltar o obvio. Ao invés disso, seria mais interessante destrinchar o sentimento do que é Star Wars visto pela primeira vez. Ao contrario do mundo real, insosso por natureza, nesse universo, Bem e Mal são distintos e identificáveis pela cor do sabre de luz, existe a presença quase palpável de uma força superior, heróis e vilões possuem seus ideais e algo pelo qual morrer, enormes naves espaciais navegam no oceano de estrelas sobre as cabeças mortais de diferentes planetas, exibindo uma tecnologia quase imaginária para uma geração que aos poucos descobria o potencial do computador.

Star Wars representa o ideal da juventude da alma. O jovem que aspira ser um herói terá em Luke Skywalker ou na Princesa Leia essa imagem, o mais ambicioso e que não se conforma em abaixar a cabeça com uma realidade miserável encontrará na malandragem de Han Solo esse escape. Ao adulto que se tornou o oposto de tudo aquilo pelo o qual lutou na juventude ou que sonhava na infância, a forma deformada de Darth Vader, construída com base na traição de tudo pelo qual ele amava, se torna um espelho para autorreflexão.

A saga que mudou a historia do cinema e redefiniu os blockbusters de verão é mais do que isso. É sobre você que está lendo, é sobre mim que vos escreve, é sobre o mundo que quase acabou ou sobre o futuro que ainda está sendo escrito. Sobre a eterna luta do Bem e do Mal no campo filosófico, religioso ou interno do ser humano. Talvez o que haja de mais cômico nisso tudo seja que por mais que essa história seja tão intima de todos e que diga tanto sobre este mundo, ela aconteceu há muito tempo, em uma galáxia muito, muito distante.

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