Fernando Young

Ele veio do teatro, mas ficou conhecido na web quando a galera do “Porta dos Fundos” revolucionou a internet. Hoje Luis Lobianco colhe os frutos do sucesso na novela das 21h, “Segundo Sol”, com um personagem cheio de graça que conquistou o público. Antes disso, veio “Gisberta”, monologo mais que necessário sobre a questão do preconceito. Sem dúvida o maior desafio da sua carreira. Confira abaixo nossa conversa com o ator.

 Você conquistou um espaço muito bonito na sua trajetória como ator, como tem sido a repercussão do sucesso de Clovinho na sua vida?
Luis Lobianco – Obrigado! Tenho mesmo muito orgulho dessa trajetória. Tive mais “nãos” do que sim. São 24 anos de dedicação total ao teatro, mas, só há seis anos consegui dar maior alcance ao meu trabalho. Até 2012 a vida profissional era tão instável que não tinha nem o dinheiro da passagem de ônibus pra chegar ao ensaio. Poder criar o Clovinho é um privilégio. Poucos atores brasileiros tem a oportunidade de mostrar o trabalho com tanto destaque. Sinto-me na obrigação de fazer o meu melhor. Sou imensamente grato e todo dia de gravação é como uma celebração pra mim.

“Portátil” é sucesso de público no Brasil e em Portugal, como vocês lidam com o sucesso e de que forma isso influência na vida de vocês? Você acha que “Portátil” foge de um espetáculo comum de improviso?
Luis Lobianco – O sucesso do “Portátil” só nos influencia com alegria. Temos uma amizade que fica evidente em cena e o público ama perceber que as relações são verdadeiras. É um espetáculo diferente porque não improvisamos em pequenas cenas aleatórias que servem pra contar uma piada. Contamos histórias com início, meio e fim! Tudo que é feito no palco é baseado no que alguém da plateia contou sobre sua vida: de quando os seus pais se conheceram até um futuro sonho se realizando. Portanto, digo que improvisamos a dramaturgia e o gênero do espetáculo. Dependendo do que nos contam a peça pode ser dramática ou hilária.

Qual é a importância do “Porta dos Fundos” na sua carreira?
Luis Lobianco – Foi um acolhimento. Um grupo de artistas estava criando um novo espaço de liberdade criativa. Confiaram em mim para compor o time. Foi um renascimento artístico. Não só pela visibilidade que o canal ganhou, mas também porque, até então, com 18 anos de teatro, ninguém tinha me dado uma chance como aquela. Mudou minha vida.

“O Grande Gonzalez” foi um marco na sua carreira, te abriu portas, como foi o processo de construção e desconstrução do seu personagem?
Luis Lobianco – Tínhamos uma história com narrativa nada linear para contar. Os personagens encenavam versões reais e mentirosas sobre um crime. Tudo em flashback. O estudo do roteiro precisava ser minucioso para não errar as intenções e interesses de cada um. Era necessário concentração total e muito trabalho por ser o protagonista. Não penso muito em desconstrução porque carregamos os personagens dentro da gente pra sempre. Eles vão influenciando uns aos outros na caminhada. Desconstruímos o que é técnico, mas, isso acontece já no dia seguinte ao fim do trabalho. O material humano, que é o que realmente importa, a gente guarda no coração.

Você criou um projeto de renome mundial sobre homofobia e transfobia, qual a importância de “Gisberta” na luta do movimento LGBT no Brasil?
Luis Lobianco – Gisberta se tornou mais conhecida no Brasil quando Maria Bethânia interpretou a música “Balada de Gisberta” de Pedro Abrunhosa no show “Cartas de Amor”. Mesmo assim sua história trágica alcançava mais as militâncias LGBTs e não chegava a se popularizar. A ideia do espetáculo é fazer com que uma história tão importante saia da nossa bolha de conscientização e provoque empatia em massa. O teatro tem esse poder. Em Portugal “Gisberta” se tornou ícone e modificou leis. Aqui ainda teremos um longo caminho.

A peça é encenada apenas por você em cena. Qual é a importância desse desafio na sua carreira?
Luis Lobianco – É o meu primeiro monólogo e isso é desafiador desde a criação do projeto, pesquisa até o terceiro sinal. A preparação ganha um caráter de treino quando toda a história deve se manifestar no corpo e voz de um só ator. É preciso partiturar as pausas, movimentos, respiração e ritmo como uma dança. É absolutamente físico, digo que cada apresentação é como uma partida de vôlei. Entram também o público e a emoção. No fim das contas tudo da certo. Tem uma força poderosa no teatro quando você se entrega a algo que acredita muito.

A transexualidade é encarada pela sociedade ainda com muita dificuldade, o movimento LGBTQ cada vez mais é um símbolo contra a opressão e a catequização. Você acredita que a religião, seja ela qual for, atrapalhe nessa jornada? O trabalho da mídia ainda pode ser visto como tendencioso?
Luis Lobianco – A maioria das religiões impõem dogmas morais para controlar um grupo de pessoas. Nessa lógica, toda manifestação que contraria um padrão é condenada. Vivemos então as consequências desse pensamento comum: exclusão, preconceito e marginalização como punição. Pessoas trans ficam ainda mais vulneráveis porque seus corpos são imediatamente censurados e apagados dessa organização social. A mídia tendenciosa da época atual é aquela que não enxerga representatividade como um caminho de reparação com os grupos LGBTQs. Grandes grupos de mídia precisam assumir responsabilidades que as artes têm tentado abarcar. Nas condições que trabalhamos tem sido quase impossível dar conta de tantas urgências.

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