Normalmente seus personagens têm um peso social muito grande. O que você pensa do mundo que vivemos? Você acha que como ator, você tem uma função maior ainda de ajudar a formar opiniões ou até mesmo orientar?
Rafael Losso – Tem uma frase de Renato Russo que define em partes algumas questões presentes em várias esferas da sociedade, ou seja, “O mundo está ao contrário e ninguém reparou”. Precisamos de um mundo mais seguro, de igualdade, sobre tudo, de empatia. Sobre meus personagens, tive uma grande boa sorte em pegar papeis que tiveram um peso social, isso na televisão e no teatro. E acho que todo ator é um ser político por si só. Não sei exatamente se a gente quer ajudar a formar opinião, ou orientar, mas a gente quer, na maior parte do tempo, questionar, para que as pessoas se façam perguntas e tentem ir mais à fundo em suas próprias ideologias, numa busca por se auto entender, de rever e compreender os valores que, felizmente ou infelizmente, ditam as regras do mundo. Busco sempre ser melhor, trabalhar com amor.

Você vem de uma sequência de personagens fortes. Eu queria falar um pouco sobre o Capitão, da série “Rotas do Ódio”, como foi para você interpretar um Skinhead? Você precisou se desfazer dos seus conceitos sociais para esse personagem?
Rafael Losso – Quando a gente faz personagens muito marginais é preciso se imbuir de muito material, muita pesquisa, referência. Mas ao mesmo tempo não deixar aquilo te transformar como pessoa. Eu não mudo meus conceitos sociais a cada personagem que eu faço. Eu só tento “mergulhar fundo” no mundo deles, isto é, tentar entender suas razões e seus porquês e, assim, passar verdades em cima daquilo. Porque esses seres (os skinheads) existem e precisam ser notados, até mesmo pra que a sociedade saiba quem são essas pessoas e o que as motiva a agir assim. E sobre conceitos, acredito que a gente não se desfaz dos nossos, mas fortalecemos ainda mais nossas opiniões e visão de mundo. Personagens assim exige que estejamos, sãos, porque são trabalhosos.

Em “Rotas de Ódio”, a temática LGBTQI+ é abordada, aliás, o movimento é cada vez mais é abordado em produções culturais, qual é a importância de se levar à público, essas histórias?
Rafael Losso – É muito importante que a temática LGBTQI+ seja abordada cada vez mais nas produções culturais, que, acredito eu, devem estar à serviço das questões sociais. As pessoas, independente da sua orientação sexual ou identidade de gênero, estão aí e merecem ser reconhecidas, merecem nosso cuidado. Infelizmente o preconceito está presente todos os dias, em diversas circunstâncias. Existe um radicalismo perante as minorias que não é bom para nós, que dificultará existir a paz junto com as diferenças. Temos que ir para um caminho de aceitar o outro e sua forma de querer viver. Acho importantíssimo que a temática seja cada vez mais abordada para dar voz a essas pessoas, e a cultura é perfeita para isso, para a gente se perguntar e mostrar todas as faces do mundo.

Você já fez dois filmes, agora vai estrear em mais dois, dirigidos pelo Caio Cobra. Em ambas as produções, você está envolvido no universo policial, em um sendo amigo de um policial e no outro interpretando um Tenente da polícia militar. Eles são personagens muito parecidos na essência, como você trabalhou para diferencia-los? E Como foi esse convite? Se deram na mesma época?
Rafael Losso – Então, sobre os filmes com o Caio Cobra, ele virou meu parceiro de vida. A gente tem projetos juntos, que começaram com um piloto e fomos nos reconhecendo e, hoje, queremos sempre trabalhar nossas ideias. Tanto pra mim, quanto pra ele, foram mundos completamente distintos. O universo que tem o “Cidade do medo”, que antes era “Intervenção”, é um universo sério e muito palpável no sentido de representatividade, principalmente nos dias de hoje. A trama fala de um assunto seríssimo, que é sobre as Upps implementadas nas favelas do Rio de Janeiro, além de apresentar o dia a dia da polícia que trabalha nesses ambientes. E o Tenente Souza é um cara sério, que está tentando sobreviver nesse mundo. Um personagem muito distinto do Naldo, (de “Virando a Mesa”) que apesar de estar imbuído numa trama policial, é um cafajeste, um jogador, e ele tem um grande amigo, que é policial. Mas ele é trapaceiro. E esse outro longa é uma comédia, feito pra ser divertido. A história trata da grande aventura desses dois colegas, que se enfiam em muita lambança pra tentar desfazer essa bagunça que meu personagem causou. Os convites para esses dois trabalhos vieram em épocas diferentes. A gente já tinha feito o “Virando a mesa” quando o Caio recebeu o convite para fazer “Cidade do medo”, então nenhum atrapalhou o outro. Mas foi muito legal porque os personagens são completamente diferentes um do outro. São desafios maravilhosos!

Como foi a relação no set com o Caio Cobra?
Rafael Losso – A relação no set com o Caio é sempre maravilhosa. Como a gente vem trabalhando junto faz um tempo, nos respeitamos e nos entendemos, e isso faz com que a comunicação seja muito massa, flua. Se temos dúvidas, sempre questionamos um ao outro. Que venham muitas outras parcerias!

Seus personagens exigem um preparo grande e muitas vezes cheio de ódio, como você trabalha a desconstrução desses personagens dentro de você?
Rafael Losso – Eu já passei poucas e boas com esses personagens que cruzam meu caminho, mas é sempre muito gratificante. Eu faço um trabalho de corpo muito intenso no meu dia a dia, que vem com a meditação, yoga, ciclismo, academia. E agora tô começando a investigar um pouco do budismo, então, é sempre muito físico essa desconstrução, de voltar a esse momento de calma e colocar o corpo no lugar. O corpo e a mente. Então acho que isso me ajuda muito a ajustar as ideias no lugar ideal para meu bem-estar. Sempre busco ler, também, livros que não tem a ver com os assuntos que estão nas tramas que gravo, isso pra fugir e colocar minha memória em outros lugares.

Você vem de teatro, inclusive esteve em cartaz com o Flutuantes, uma comédia dramática. Qual é a importância do teatro na construção da sua carreira?
Rafael Losso – Eu venho do teatro. Comecei com 16 anos fazendo teatro-escola e passei por outras várias escolas, como “Oficina dos Menestreis”, “Oswaldo Montenegro”, “Deto Montenegro”, “Candé” e, também, escola “Celia Helena” e outras, além de cursos que fiz na área. O teatro é fundamental, já diz um amigo meu “teatro é óleo na máquina”. Ele faz parte de quem eu sou como ator e graças a Deus grandes personagens me cruzaram nesses anos de teatro, inclusive personagens de Shakespeare, Nelson Rodrigues e Bertold Brecht. Então eu também, de alguma forma, sinto ter partilhado do caminho desses grandes autores, que foram auxiliadores para me formar o ator que sou hoje. E o teatro é o meio que eu nunca vou abandonar. Sempre que eu puder e tiver um bom projeto, volto pros palcos, pois a mágica ali é diferente da TV e do cinema. Não tirando a beleza dos outros formatos, claro, até mesmo porque amo o audiovisual e tenho cada vez mais me apaixonado pelo trabalho com a câmera, porém o teatro é fincar os pés no chão do palco e dar o texto! Repito: é fundamental!

Sua participação na série “Sob Pressão” mostrou para o público da TV que você é capaz de fazer muito mais do que somente personagens marrentos. Como foi essa experiência para você?
Rafael Losso – Fazer o “Sob Pressão” foi um presente, um divisor de águas na minha carreira do audiovisual. Eu já tinha feito novela, mas ainda estava entendendo como é que era a atuação para o audiovisual. “Sob Pressão” me trouxe o Maicon, que é um personagem gigante. O conhecimento adquirido para compô-lo é algo que levo pra vida toda. Maicon era soropositivo e isso me fez aprender mais sobre o vírus e a doença. Considero importantíssimo quando a arte usa temas polêmicos para conscientizar o público. O telespectador se emociona, se questiona e, até hoje, tenho lembranças ótimas desse trabalho. Guardo cada momento no coração com muito carinho.

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