De início, apenas o que se sabe é que Mula (Anna Krotoska), que vive em uma casa de campo com seu marido, sua mãe enferma e sua filha, Nina (Laila Hennessy), receberá a visita da família para a Primeira Comunhão da garota, entre os presentes estará sua irmã, Kaja (Małgorzata Szczerbowska), uma mulher mentalmente desequilibrada que, na verdade, é a mãe biológica da menina e a abandonou ainda bebê. O que Mula mais teme nesse reencontro é que a criança descubra a verdade e a integrante desgarrada da família tenta levá-la embora. E, desde o começo, a produção já informa a seu público que irá enveredar pelos caminhos do horror com uma cena que ecoa a abertura de “O Iluminado”. Assim, o espectador percebe a história se trata de uma tragédia anunciada, o que cria a expectativa de um grande clímax catártico.

No entanto, não é bem assim que o enredo se desenvolve. A diretora Jagoda Szelc evita o aguardado confronto entre as irmãs o máximo que pode – o que, neste caso, significa por uma hora e meia dos 106 minutos de duração -, trabalhando apenas a promessa de que algo crítico pode acontecer a qualquer momento. Essa tensão é criada por uma câmera instável – às vezes, excessivamente tremida -, uma montagem que corta ações e personagens inquietos. Além disso, ainda há um incansável jogo verdade ou mentira, realidade ou delírio, por meio de cenas fora de contexto, as quais podem representar alucinações de qualquer uma das personagens, uma vez que o ponto de vista se alterna entre elas, mas sem permitir que o público, de fato, as conheça.

Desta forma, a trama cria, gradualmente, uma sensação de paranoia não apenas nos membros daquela família, mas também no espectador, o qual passa a duvidar da própria sanidade ao se questionar de onde vem o perigo real – afinal, para todos os efeitos, Kaja é a irmã desequilibrada e Mula é a sã, no entanto, esta toma atitudes e exibe o temperamento impetuoso que se esperaria da outra, que não demonstra qualquer tipo de ímpeto brutal, apesar de ser a que é considerada perigosa. Porém, embora consiga trabalhar muito bem a sensação de inquietação e incômodo no público, o grande erro do longa é fazer disso a sua prioridade, sem se preocupar com algum desenvolvimento de personagem, apenas com ambientação e subjetividade embalada por ruídos aflitivos, o que demonstra uma ânsia desmedida de criar algo enigmático, excêntrico, bizarro por meio de eventos metafísicos doa a quem doer – e, neste caso, acabou doendo na própria experiência do filme, que, com sua falta de desenvolvimento e excessiva preocupação com o estranho, torna-se raso e um tanto quanto narcisista.

E, após muitas metáforas e delírios – os quais, obviamente, são uma grande diversão para a diretora -, o longa chega ao seu desfecho abrindo novos caminhos em vez de tentar unir em um ponto os já apresentados, dedicando-se a outros caracteres deste jogo que parece interminável apesar da duração relativamente curta da produção, que perde seu foco, passando a sensação de que o roteiro deixou tantas pontas soltas e abriu tantas possibilidades que simplesmente não sabe o que fazer com elas no ato final e decide criar um novo rumo, o qual dispersa não apenas a trama como também a atenção do público.

E isso, por fim, demonstra que Jagoda Szelc possui muitas inspirações – uma aura meio “polanskiana” (O Bebê de Rosemary, Repulsa Ao Sexo e A Faca Na água), a ambiguidade de “A Bruxa”, a insânia de “Hereditário” e características de movimentos cinematográficos como o Dogma 95 -, no entanto, em sua avassaladora gana de em produzir um cinema autoral impactante, como uma espécie de Lars Von Trier do Leste Europeu, a diretora e roteirista coloca todo o seu esforço em incomodar o espectador – e até consegue por um tempo – e se esquece de preencher a sua técnica com um conteúdo consistente, o que, no fim, torna a experiência ineficaz em suas intenções, indicando que “Torre. Um Dia Brilhante” não conseguiu concretizar suas ideias, apesar de demonstrar a todo momento, sem qualquer modéstia ou consciência, que se orgulha das próprias promessas vazias.

 

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