“O Insaciável Zé Carioca” traz a cena uma série de assassinatos em massa no centro histórico do Rio de Janeiro. Perpetrados por uma figura misteriosa, acontecem ao mesmo tempo em que a cidade passa por uma interminável greve dos garis. O espetáculo dá continuidade à pesquisa iniciada em A Praia do Mel (2017), primeiro trabalho do grupo de artistas Caravana Haole, sobre fazer ficção com o Rio de Janeiro contemporâneo. O mais novo, com dramaturgia de Felipe Bustamante e Jopa Moraes e direção de Jopa Moraes, e que lança o olhar sobre o centro do Rio retorna aos palcos, com temporada de 06 a 22 de dezembro, no Espaço Armazém – Fundição Progresso.

Ficcionalizar o tempo e o espaço – como Nelson Rodrigues fez com o subúrbio carioca em sua própria época ou Mark Ravenhill com a geração raver da Londres dos anos 90 – é, inevitavelmente, uma tentativa de representar o mundo como ele é, e não como ele se parece. A realidade da violência e do abandono de uma cidade é tão catastrófica que, hoje, nenhum realismo ou naturalismo poderia lhe fazer justiça.

A direção optou por uma espécie de hiperrealismo (ou realismo hiperativo). O real ainda está aí, é evidente na fidelidade dos uniformes – policiais, estudantes, garis – do figurino de Amanda Rumbelsperger, que usam o reconhecível como forma de causar espanto, e também na cenografia de Jopa Moraes, que faz do lixo seu elemento central. Algumas coisas serviram de base e norte no processo de criação de O Insaciável Zé Carioca. Os quadrinhos de Diego Gerlach, com sua sátira mordaz da sociedade brasileira; a série animada Paranoia Agent, escrita e dirigida pelo japonês Satoshi Kon, que retrata Tóquio e seus habitantes durante uma situação insólita de calamidade pública; os escritos políticos e filosóficos do coletivo francês Comitê Invisível e do teórico cultural britânico Mark Fisher.

Essa mistura de referências – vindas de longe e de perto – serviu como lembrete de que quanto mais específica uma obra, mais universal ela é. Dramaturgia e encenação foram sendo levantadas concomitantemente, e a brutalidade da peça, e também seu humor, devem muito a esse modo de criação híbrido, aonde as coisas são postas em contraste o tempo todo. Há também, na construção da encenação e dos personagens (representados por Bruna Trindade, Felipe Bustamante, Maria Celeste Mendozi, Rodrigo Salvadoretti e Zéza), uma busca por agilidade.

SERVIÇO
“O Insaciável Zé Carioca”
Temporada: 6, 7, 10, 14, 15, 17, 19, 20, 21, 22/dezembro
Horário: 20h
Local: Espaço Armazém – Fundição Progresso (Rua dos Arcos, 24 – Centro – Rio de Janeiro)
Preço: R$ 40,00 (inteira) R$ 20,00 (meia)
Lotação: 101 lugares
Classificação: 16 anos
Duração: 85 minutos

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