Desde o tempo em que se desenhavam coitos nas bordas douradas das bíblias para serem apreciados em plena missa, o homem e a mulher ocidentais (os orientais também devem ter suas soluções) encontram caminhos para dar vazão aos desejos, interesses e temas considerados proibidos, quando não francamente pecaminosos. As interdições obviamente nunca impediram as manifestações cifradas e a comunicação oblíqua com os espectadores mais perspicazes ou que dominassem certos códigos secretos.

No século XX, se a literatura já tinha conquistado – não sem polêmicas, escândalos, processos e perseguições – uma grande liberdade criativa, formal e temática quanto ao tratamento do gênero e do sexo (vide o joyceano Ulisses), no cinema de mercado as dificuldades eram bem maiores por conta da estratégia comercial do “filme de família”, que garantia enormes rendas na bilheteria. A vigilância de produtores e censores amesquinhava a iniciativa, sobretudo de diretores e atores, e propostas mais ousadas ou trilhavam o campo aberto da pornografia “ilegal” ou ficavam à margem por conta da radicalidade alcançada, como é o caso do clássico do homoerotismo silencioso, “Salomé” (1922), dirigido por Alla Nazimova, mas assinado pelo marido Charles Bryant.

A mostra “Alusões Homoeróticas do Cinema Clássico” em verdade trata das alegorias, sugestões, dos códigos engendrados por diferentes realizadores e cinematografias para afirmar a presença de outras opções de vida e relacionamento amoroso em meio a sociedades que se queriam modernas, mas permaneciam praticando os velhos obscurantismos, nada muito diferente dos dias que correm, em que ser gay, lésbica, trans e todas as outras opções LGBTQI+ dá cadeia ou até pena de morte em mais de 50 países ao redor do planeta. Como celebração da coragem cinematográfica e das pessoas que ousam transgredir os limites de uma identidade que não é natural mas construída social e culturalmente, o pequeno ciclo celebra a diversidade e a própria vida no que ela tem de invenção de si mesmo e prazer pelo outro, qualquer que ele seja.

SERVIÇO
Alusões Homoeróticas do Cinema Clássico
Cinemateca do MAM (Endereço: Av. Infante Dom Henrique, 85 – Praia do Flamengo)
De 8 a 14 de abril
Ingressos gratuitos

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