A Antártica é um dos pontos mais isolados é solitários de todo o planeta. No inverno, o ciclo polar inteiro congela, e várias áreas ficam intransponíveis por água, terra e até por voo aéreo. Agora, imagine ficar nessa situação de isolamento, com mais 14 pessoas que você nunca viu nada vida, por mais de um ano. É isso que o documentário dirigido por Julia Martins, Antártica Por Um Ano, tenta retratar, e mostrando também um lado humano maravilhoso do grupo da Marinha do Brasil na estação antártica de pesquisa nacional.

É necessário dizer que o terreno antártico é completamente imprevisível, em todos os sentidos, um plano arquitetado por semanas pode vir abaixo em poucas horas, por  conta da natureza extrema, e isso o filme deixa muito claro, o que gerou vários desafios para a equipe de filmagem e para os próprios militares que estavam em missão. Pra começar a equipe de Julia, seu diretor de fotografia e técnico de som, ficariam cerca de 20 dias na base (sem contar que todo processo de filmagem foi atrasado 3 anos por conta de incêndio ocorrido na base em 2012) mas acabaram ficando apenas 5 dias, pois os outros 15 foram  à bordo do navio em Puerto Williams, Chile, por conta de uma anomalia meteorológica. Depois disso, eles não foram capazes de voltar antes do início do inverno para a estação, onde estava o grupo militar. Problemas não faltaram, mas que foram resolvidos com muito esperteza, apesar do orçamento limitado (o que é não só impressionante como também louvável).

Esses pequenos obstáculos acabaram por gerar o carisma do documentário, ele retrata a humanidade cotidiana das pessoas, que é melancólica, ao mesmo tempo que engraçada. É muito bonito presenciar a forma como tal isolamento de toda civilização conhecida repercutiu dentro daquelas pessoas. Um exemplo é a doutora da estação (Fátima Oladejo, a única mulher do grupo) que tem as reflexões mais interessantes de todas, ela começa a estudar filosofia pra passar o tempo (principalmente Nietzsche) criando conflitos existenciais. Ela reflete sobre como a sociedade impõe suas regras para as mulheres, por ser a única do grupo, ela se abstém parcialmente de sua feminilidade por um questão de segurança. Outro integrante revela que na estação a equipe precisa estar tão em conjunto que a hierarquia militar deixa de existir, ela se torna inviável naquela situação.

Esse lado humano, e descontraído do documentário traz ao mesmo realidade em um tom cômico, um exemplo dessa veia cômica é que em determinado momento o Sub Chefe da estação conversa com a câmera e diz: “Aqui você nem precisa colocar gelo na bebida, você deixa na mão que fica gelada. É uma beleza, é um churrasco dentro do freezer”.

Além disso, duas partes técnicas que merecem destaque por primor é a direção de fotografia belíssima que faz uso da luz natural lindamente e a trilha sonora fortemente intimista que além de passar a nossa de imensidão solitária, também transmite uma sensação de  contemplação. Uma crítica a se fazer é quanto a montagem do filme, que junto com a narração em off da diretora, torna a narrativa repetitiva sem necessidade, o que é algo comum em documentários.

Geralmente, filmes documentais são viagens intimistas que geram um reflexão individual muito silenciosa, melancólica dependendo do assunto, mas no caso de Antártica por Um Ano a humanidade alegre da realidade do brasileiro comum é tão forte, tão presente que se sai da sala do cinema com um grande sorriso, e cheio de leveza. Não é pra menos que o filme ganhou o prêmio de Melhor Produção no Festival Internacional de Cineastas de Nova York (International Filmmaker Festival of New York).

 

2 Comentários

DEIXE UM COMENTÁRIO

Please enter your comment!
Please enter your name here