A câmera segue o curso de um rio até chegar a uma procissão formada por pequenos barcos cujos ocupantes reverenciam a imagem de uma santa com um canto ecoante. Este é o resumo dos primeiros minutos de Amazônia Groove, documentário dirigido por Bruno Murtinho que aborda os diferentes ritmos e estilos musicais que surgem no estado do Pará, às margens do rio Amazonas, e como este influencia a vida e a cultura da região.

Para isso, o longa colhe depoimentos dos mais diversas personagens cujas carreiras na música têm alguma ligação com o rio. Assim, são apresentados nomes que já se tornaram quase folclóricos na cultura local, como Dona Onete e Mestre Damasceno, até outras figuras pop da região, como o produtor musical Waldo Squash e a cantora Gina Lobrista, que se apresenta e vende seus CD’s independentes no Ver-O-Preço, o maior mercado popular a céu aberto da área.

Com isso, o documentário vai do brega e do techno-melody, passando pelo bolero, até a música clássica para mostrar esta mistura de ritmos e influências permeada pelas águas amazônicas, que impactam praticamente todos os aspectos dos paraenses, seja na cultura, na religiosidade, ou no próprio misticismo presente da região. E esta viagem musical é extremamente bem conduzida pelo diretor , que deixa suas personagens livres para falarem sobre suas experiências, interrompidos apenas por oportunos comentários da jornalista Úrsula Vidal e do escritor Alfredo Oliveira, que contribuem para o principal objetivo da produção.

Desde o primeiro momento, percebe-se que a intenção do diretor é atribuir um aspecto monumental à música brasileira e à música paraense, mais especificamente – tarefa cumprida com louvor, uma vez que tudo converge para isso, os depoimentos, a narração, a deslumbrantes tomadas de Murtinho – seja da mata, da cidade ou da vila de pescadores -, além, é claro, das próprias melodias – cada uma, a seu modo, eleva o valor cultural e de entretenimento da produção.

Aliás, um momento específico na metade do filme é o ponto alto. os pesquisadores Thiago Albuquerque e Albery Albuquerque – pai e filho, respectivamente -, cujo trabalho, de base acadêmica, é reconhecido internacionalmente, que captam os cantos dos pássaros da floresta e as transformam em melodia, o que resulta em uma retumbante sinfonia realizada em meio a paredões rochosos – uma sequência simplesmente épica.

Outro fator que colabora para o valor de produção é a impressionante cinematografia de Jacques Cheuiche – premiada no festival South By Southwest (SXSW) -; límpida e dando destaque às cores – em especial, tons de verde e azul -, ela mostra com clareza cada detalhe daquele ambiente, transportando o espectador para aquele estado, aquela cidade, para dentro da floresta, para dentro rio – às vezes, literalmente.

Com isso, o longa consegue reproduzir e transmitir ao público a principal função da música produzida ali: a criação de identidade. Em um mundo globalizado em que a cultura estadunidense é hegemônica, a produção musical paraense, da tradicional à contemporânea é uma forma de criar e manter uma identidade própria, fato que deve ser reconhecido – em especial, pelos próprios brasileiros, uma vez que várias das personagens do filme já levaram seus trabalhos para o exterior de forma bem sucedida.

Desta forma, mostrando todos os matizes únicos daquele pólo de produção cultural, com toda a sua tropicalidade e diversidade, Amazônia Groove mostra que, mesmo em situações difíceis e de ausência de condições e felicidade, a música, em última forma, pode servir nem que seja para “distrair a tristeza”. e, após iniciar sua trajetória nas águas do Amazonas indagando quantas músicas cabem em um rio, o documentário retorna ao seu ponto de partida para formular uma resposta a partir de todas aqueles perfis expostos, formando uma jornada coesa e circular perfeita, de um refinamento raro. É, definitivamente, uma produção que todos deveriam assistir – em especial, os brasileiros.

 

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