Beatriz (Marjorie Estiano) e Marcelo (Sérgio Guizé) são um jovem casal carioca que se mudou para Lisboa, após o escritor passar por graves problemas psicológicos depois do sucesso de seu primeiro romance. Com isso, a mulher deixou sua carreira estável de advogada no Brasil para começar tudo de novo na capital portuguesa, enquanto seu marido escreve contos eróticos para uma revista. Para que ele tenha inspiração, o casal realiza fantasias e jogos sexuais em locais públicos, uma estratégia que tem se mostrado eficiente. Porém, o relacionamento começa a passar por uma crise quando o editor da revista tece críticas negativas sobre seu novo romance, exigindo que este seja tão bom quanto seu antecessor.

Assim, Marcelo começa a entrar em uma espiral de desequilíbrio, obrigando Beatriz a segui-lo neste caminho. Para isso, ele pede que ela saia sozinha para ter experiências sexuais com homens e mulheres desconhecidos, narrando-as para o marido posteriormente. O problema é que Beatriz passa a se afundar cada vez mais no descontrole emocional, chegando a fazer uso dos medicamentos para fibromialgia de Marcelo para aguentar a nova rotina, a qual ameça sua integridade física e sua vida profissional, e, o que começa como uma novidade excitante de liberdade sexual se transforma em uma viagem ao fundo de um poço permeado por depravação, ressentimento e dependência doentia.

Esta parece ser uma premissa até interessante, não fosse pela abordagem dada a ela. Embora apresenta uma elegância estética digna de nota – desde de design de produção até a cinematografia límpida e impecável -, se a produção tivesse como objetivo fazer uma crítica a submissão imposta à mulher pelos abusos do marido, o enredo teria sido muito mais proveitoso. No entanto, o roteiro – escrito por cinco homens: Alberto Graça (que também dirige o longa), Marcos Bernstein, José Carvalho, Ricardo Bravo e José Pedro dos Santos -, insiste em dizer que Beatriz é a “musa inspiradora” de Marcelo, porém trata a mulher como uma mártir, capaz de realizar grandes sacrifícios por “amor”.

Com isso, a trama revela seu teor machista – mesmo que não admita isso, uma vez que, quando a atriz que participa a adaptação da história para o teatro questiona a posição servil da personagem, todos tratam logo de dissuadi-la. E o que agrava esta má impressão é o fato de esta nem ser uma premissa original, já que mostra uma clara inspiração em “A Dama do Lotação”, clássico nacional de 1978, e, principalmente, em “Ondas do Destino”, dirigido por Lars von Trier em 1996, porém, sem muito aprofundamento, o excesso de exposição preguiçosa acerca do passado, pensamentos e personalidades – complementada por uma narração igualmente expositiva da protagonista -, torna o desenvolvimento das personagens – em especial, de Beatriz – brusco, o que tira o impacto do desabamento emocional delas.

Isso demonstra que a produção não conhece aquela máxima do cinema que diz “não conte, mostre”. E este aspecto se torna ainda mais forte devido ao tratamento dado às personagens coadjuvantes, as quais servem apenas como terapeutas não oficiais dos protagonistas – e nestes momentos, que não são poucos, além da exposição, há também uma série de falas poéticas e reflexivas que tira a fluidez dos diálogos, por mais que o intuito seja soar profundo. E, ainda, há outro elemento que trunca o andamento da trama: a constante e despropositada alternância entre os dois cenários do filme, Lisboa e Madri, algo desnecessário, afinal, com certeza, existem atores e teatros em Portugal que poderiam substituir o núcleo hispânico do longa.

Mas, se há algo positivo nesta produção, é a interpretação de Marjorie Estiano – uma das melhores, se não a melhor, atriz de sua geração -, que domina todas as suas cenas – por mais que roteiro e montagem não a ajudem nem um pouco -, marcando presença na mente do espectador mesmo quando não está em cena e transitando com facilidade entre diversos estados emocionais. O mesmo não pode ser dito de seu co-protagonista, Sérgio Guizé, que surgiu como uma grande promessa da dramaturgia brasileira, mas, poucos anos depois, passa a impressão de interpretar a mesma personagem em tudo que faz, com sua já característica falta de articulação das palavras – alguém precisa falar para ele abrir e movimentar a boca para falar – e seu olhar enviezado para demonstrar desequilíbrio, timidez, tesão e mais um monte de outras emoções e estados de espírito.

Assim, “Beatriz” se propõe a mostrar a deterioração de um casal que se ama – pelo menos, em teoria -, e pretende ser profundo ao indagar constantemente “como te amar sem me odiar?”, mas parece, simplesmente, não ter resposta para ela – ou não se interessar em respondê-la -, o filme tem a intenção de mostrar sua personagem-título como uma musa da figura do escritor perturbado, porém apenas a coloca em um martírio para agradar ao homem sem que isso seja devidamente aprofundado e discutido. É um filme que vende a ideia de falar sobre Beatriz, estudá-la, mas, no fim, a produção parece ser apenas a realização de um fetiche masculino de seus cinco roteiristas.

1 Comentário

  1. Feminista já é um saco de aguentar. Agora , Feminista que é precisa associar a crítica de uma arte a sua visão deturpada é de doer. Bons tempos que a critica discutia a arte como liberdade sem vies e não qualquer lixo metida a entender a arte discutindo política do feminismo. O mundo tem que ser bem cínico com vocês mesmola. Jurar que aguentam e concordam. Mas em pensamento tão querendo é que se ferrem. Não merecem menos que isso. Idiota.

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