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Palace II – Três Quartos com Vista para o Mar: Um documentário guiado pela linguagem jornalistica

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Nos anos 90, a Barra da Tijuca não era, nem de longe, o que ela é hoje, quando o bairro da Zona Oste carioca já está estabelecido como a moradia dos novos ricos. Naquela época, a região era bem menos povoada do que é atualmente e os poucos empreendimentos imobiliários ofereciam a raríssima oportunidade de comprar, por um preço acessível, um apartamento confortável perto da praia. E esta proposta atraiu muita gente para o lançamento predial Palace II, que ofertava unidades com três quartos e vista para o mar.

O lugar, de fato, era o paraíso dos emergentes – tranquilo, não tinha violência urbana, era uma área que estava se valorizando e tudo isso ajudava a esquecer que aquele prédio era uma tragédia anunciada, a qual chegou ao seu ápice na madrugada do dia 22 de fevereiro de 1998, quando as estruturas da construção estremeceram e enormes rachaduras começaram a surgir nas paredes dos apartamentos, resultando em um desabamento que matou oito pessoas e deixou quase 200 famílias desabrigadas.

A queda do Palace II é, até hoje, uma das tragédias mais conhecidas da história recente do Brasil, e, quando analisada a longo prazo, percebe-se que é muito representativa da dinâmica do país. Olhando de fora, era óbvio que aquele prédio não tinha estrutura alguma para receber moradores – após muitos atrasos na entrega da obra, ainda não havia portas, janelas, pintura, o edifício estava, praticamente, só no cimento, mas a construtura permitiu a entrada dos compradores, que terminaram o interior dos apartamentos por conta própria, afinal, eles não investiram apenas dinheiro e tempo naquilo, eles estavam comprando um sonho.

Além disso, de acordo com os relatos dos moradores – o que, depois, foi comprovado pela perícia -, o material usado para levantar o prédio era de má qualidade e continha muito mais areia e barro do que cimento – eles contam que, ao tentar pregar um quadro na parede, o prego deslizava, abrindo um sulco na superfície. Mesmo assim, os inquilinos se esforçavam para transformar o lugar – que ainda estava em obras, tendo, inclusive, o seu subsolo interditado – no tão sonhado paraíso. Porém, durante o carnaval de 1998, a situação se tornou insustentável – literalmente.

Assim, partindo deste panorama – literal e metafórico -, os diretores Gabriel Corrêa e Castro – que, em 2008, lançou o curta documental Poeira nos Olhos, sobre o mesmo caso – e Rafael Machado realizam este “docu-reportagem” de 84 minutos sobre o sonho que virou um pesadelo – o qual se estende até hoje, com muitos culpados impunes. A produção não se apressa para chegar o desabamento propriamente dito, preferindo começar com o primeiro contato das personagens com o empreendimento e o que ele representava naquele momento, passando para os primeiros sinais de que algo estava errado e chegando, mais ou menos na metade da duração, a um longo de detalhado relato sobre a noite da tragédia – aliás, são depoimentos muito bons, que, juntamente com a trilha sonora, criam um clima quase de terror.

Há, ainda, imagens de arquivo – lembrando que o prédio não caiu todo de uma vez só, a segunda parte desabou algumas horas após a primeira, quando bombeiros e imprensa já estavam no local -, as filmagens da implosão do que restou do edifício, assistida pelos moradores – talvez, este seja o momento em que a produção consegue chegar mais perto de seu objetivo que é emocionar a audiência, uma vez que são imagens reais de pessoas que perderam tudo, inclusive, pessoas que perderam a família, e a implosão foi uma espécie de conclusão para toda a mistura de sentimentos que se arrastava havia uma semana -, e o registro do garimpo de bens em meio as ruínas do Palace II.

A partir deste ponto, a produção tem a tarefa de cobrir os acontecimentos desde 1998 até 2018 – ano em que o longa chegou ao circuito de festivais -, e, após brigas e agressões  entre os moradores e os engenheiros e representantes da construtora, é neste momento que surge o real culpado da história: Sérgio Naya, dono da empreiteira, que já era conhecida pela má qualidade de suas obras. No entanto, apesar de todos saberem que ele era o grande responsável, Naya era um deputado federal, e como todo político e empresário, tinha muitos favores para cobrar, conseguindo se blindar por todos os lados e tentado vencer as vítimas pelo cansaço, seja acusando-as de invadir um prédio inacabado, seja oferecendo acordos ofensivos. Ele é, basicamente, a checklist do político brasileiro, uma personificação de Brasília.

Talvez, o problema da produção seja o fato de os diretores tentarem manter o tom emocional durante todo o longa, sendo que este aspecto casa melhor com a primeira metade do que com a segunda, a qual mostra a luta da associação das vítimas do Palace II contra um tubarão do Distrito Federal enquanto tentam seguir com suas vidas – muitos viveram em quartinhos de hotéis com suas famílias por mais de dez anos -, porém, o documentário continua tentando tirar o máximo de emoção possível em vez de ser mais pragmático – por sorte há excelentes personagens aqui, que não deixam o tom pender paro o sensacionalismo, mesmo com a forte influência do jornalismo televisivo, a qual, na maior parte do tempo, sobrepõe-se ao aspecto cinematográfico.

Assim, Palace II – Três Quartos com Vista para o Mar pode ter suas questões com relação a tom e linguagem, sem saber muito bem como dosar emoção/pragmatismo e cinema/jornalismo, mas isso não tira o mérito da produção, que tem uma história interessante – e ainda relevante -, um bom material de apoio e, principalmente, personagens que fazem valer a atenção do espectador – além de possuir todo esse sub-texto acerca da onipotência dos poderosos de Brasília, afinal de contas, Sérgio Naya já morreu e o processo pelo desabamento do Palace II segue aberto.

 

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