As jovens Kena (Samantha Mugatsia) e Ziki (Sheila Munyiva) se conhecem em um idealizado amor à primeira vista. A partir disso, uma relação amorosa comum poderia se desenvolver, não fosse por três grandes empecilhos: nenhuma das duas é lésbica assumida, ambas vivem no Quênia, onde a homossexualidade é considerada um grave erro para os padrões altamente religiosos da região, e os pais delas são adversários na candidatura à prefeitura. Com esta premissa, o longa da cineasta Wanuri Kahiu pode parecer um “Romeu e Julieta” lésbico, mas, sabiamente, o roteiro – baseado na historieta “Jambula Tree”, da premiada coletânea de contos homônima escrita por Monica Arac de Nyeko – não se prende a isso, mesmo que não busque originalidade.

Assim, o enredo segue linhas conhecidas – e até um pouco previsíveis, o que não chega a ser um demérito, uma vez que a ideia aqui é, simplesmente, narrar uma história de amor leve, mesmo que se utilize de alguns aspectos característicos dos folhetins cômicos, como a vizinha fofoqueira, que passa o dia sentada na mesma cadeira na calçada e demonstra certas inclinações vilanescas, os encontros secretos e as conversas sussurradas em público. Isso poderia ter dois efeitos: ser desinteressante por não inovar ou gerar uma conexão com o público justamente por ser um terreno familiar.

É neste ponto que entra a visão da diretora, que puxa o espectador para a segunda opção. Kahiu consegue capturar muito bem a aura do local, a identidade urbana, colorida, leve e vivaz – aliás, esse é o grande mérito de do filme, conseguir se distanciar daquelas amarras de miserabilidade fetichista que o resto do mundo usa para retratar a África; aqui, há apenas as aventuras e desventuras do dia-a-dia da classe média queniana. O roteiro ainda inicia uma discussão acerca do papel da mulher naquela sociedade, de uma forma geral, primeiro, por meio das mães das protagonistas, e, depois, ao contrapor os parâmetros para a homossexualidade feminina e masculina no país.

Verdade que o longa não se aprofunda muito nessas temáticas, mas, levando em consideração sua origem – mesmo sendo tão leve para os padrões do eixo Américas-Europa, a produção chegou a ser proibida no Quênia -, é compreensível e válido, uma vez que, tratando-se de um local em que minorias são tão oprimidas e já vivem uma realidade tão difícil, um romance suave, idealizado e juvenil e muito bem vindo – e não é sobre alienação, mas esperança, um respiro, que sempre se fazem necessários em tempos e regiões marcados pela opressão, o que faz com que, talvez, Rafiki seja um bom entretenimento para o mundo inteiro atualmente.

 

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