No livro “Algum lugar para cair e poder fechar os olhos de vez” (Pallas Editora), Raphael Vidal faz um paradoxo filosófico em sua ficção: escreve a memória de quem não tem história. E faz como nas tradições afro-brasileiras com a ancestralidade, que rasga o mistério do tempo, escrevendo como quem fala. A saga de vida e morte do protagonista e seu distanciamento com as questões existenciais enquanto busca a sobrevivência na cidade, que o trata como louco, é atravessada por uma relação de companheirismo com uma travesti sem teto. O lançamento será no domingo, 22 de setembro, a partir das 13h, na Livraria Folha Seca, Centro do Rio. O livro vai custar R$ 27 e o evento será gratuito.

Vidal, conhecido pelas festividades de rua (os eventos Fim de Semana do Livro no Porto e Pois era Noite de São João, além da Casa Porto, um misto de bar e centro cultural, na região portuária do Rio de Janeiro), se aproveita da sua vivência por todos os cantos para criar uma obra com originalidade. A possível dificuldade em narrar algo de significante de quem não deixa seu passado para ninguém é resolvida ao levar para o leitor as perguntas de um mundo onde elas talvez não existam. Será que o Correria e a travesti pensam como quem lê?

Em 70 páginas de tirar o fôlego, a realidade pulsa de cada palavra. É um livro em movimento, assim como seus personagens. E se move em direção ao leitor contemporâneo ao provocar nossa humanidade por meio de uma história simples, com pipa, procissão, comida de pensão e Waldick Soriano. “Afinal, se existimos enquanto somos lembrados, o que estamos fazendo de nossas vidas? E o que estamos fazendo com a vida de quem não nos atravessa? Se fecharmos os olhos de vez seremos imortais na lembrança de alguém?”, questiona Vidal.

Existem hoje cerca de 38 milhões de desocupados no Brasil. “A estatística do IBGE, que trata dos brasileiros que não estão empregados, diz muito também sobre uma parcela da nossa população que não guardamos nenhuma memória, nem números: os brasileiros que sobrevivem abaixo da informalidade. Dos que fazem bicos, catam dos lixos, carregam o pesado, até os motoristas de transporte irregular, cozinheiras de quentinhas e ambulantes de usados. Se o que dá sentido à vida é deixar um legado no mundo, como história a ser contada, podemos até dizer que estes todos nunca existiram. O fato é que são exatamente estas pessoas que dão vida para toda a cidade. Estes, que nunca descansam, não param em nenhum momento, não conseguem fechar os olhos, vivem pelas ruas e fazem o necessário movimento que faz a roda girar”, diz o autor.

“Algum lugar para cair e poder fechar os olhos de vez” faz um certo ajuste de contas entre esses personagens tão reais da metrópole, que vivem à margem dela e, ainda assim, em muito contribuem para o seu funcionamento. Vidal afirma, num trecho: “Assim como vemos passar alvoradas e luscos-fuscos é a existência. Aquele moleque cheio de fome e sede adulteceu e fez morrer. Ainda se escuta o nome dele pela janela, voando as sílabas pela escadinha que dá na rua. Desistiu, não há nada mais: o bonde passou e ele caiu nos trilhos. Esperou o Zé Maria vir buscá-lo pelo pé. Lamentou o tédio de aguardar a morte sem ao menos um pito. E, quando ela chegou, restou apenas carne: sua história já escapara, ao lado dos seus mais chegados, pois que todos morrem com a vida que se renova”.

Para a editora Mariana Warth, da Pallas, para além da literatura em si, o livro ainda exerce um papel social importante neste momento político da cidade e do país. “A leitura dos originais me causou um grande impacto com a narrativa, muito fluida apesar de fragmentada, o que é uma característica da escrita do Vidal. A história joga luz nas pessoas socialmente invisíveis – crucial nos dias que correm. Diria que é daquelas leituras rápidas que valem muito a pena pela força da trama”, recomenda.

SERVIÇO
“Algum lugar para cair e poder fechar os olhos de vez”
Data: 22 de setembro, domingo, a partir das 13h
Livraria e Edições Folha Seca – Rua do Ouvidor, 37, Centro do Rio

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