“Cinema para russos, cinema para soviéticos, da editora Bazar do Tempo, é resultado de mais de cinco anos de pesquisa do professor João Lanari Bo, que reúne em seu livro mais de 150 filmes e diretores e 60 fotos inéditas, apresentando um impressionante panorama da cinematografia feita na Rússia, da era pré-revolucionária à invasão de Praga, em 1968. Nessa abordagem, o autor conjuga uma ​grande variedade de filmes​ aos contexto​s​ dessas produções, revelando a íntima e dominante relação entre cinema e política, forças de poder e controle ideológico, personalismo e propaganda.

Cinema para russos, cinema para soviéticos será lançado dia 24 de outubro, às 19h, na livraria Blooks, do Shopping Frei Caneca, dentro da programação da 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.  O livro também será lançado no rio de Janeiro, dia 31 de outubro, quinta, às 19h na Blooks da Estação Net Rio.

O livro surgiu a partir de uma leitura de “O fim do homem soviético”, da escritora e jornalista Svetlana Alexievich (Prêmio Nobel em 2015). “Fiquei impressionado quando li a Svetlana, isso de certa forma me inspirou na pesquisa. No livro, sobressai a ambiguidade entre russos portadores de uma cultura internalizada historicamente e os cidadãos carregados de artificialismo soviético, ambiguidade que acabou configurando também a expressão cinematográfica”, conta João.

Dividido em quatro capítulos, Co livro trata a produção cinematográfica russa desde seus primórdios; passando pelos cultuados filmes dos anos 1920; e nos anos 1930, em que Stálin assumiu um papel radicalmente controlador do Estado e da produção cinematográfica, resultando em um cinema dirigido e orientado – e indo até 1968, um ano decisivo para a história do projeto soviético.

“Quando Stálin morre [1953] o cinema passa por uma abertura, que impactou enormemente a produção: em 1968, na Primavera de Praga, intensificam-se novamente as instâncias censórias. Tenho o projeto de fazer a segunda parte, pós 1968, passando pela queda do comunismo em 1989-90, um território acidentado e interessante historicamente”, completa João.

“Cinema para russos, cinema para soviéticos. Uma oscilação que atravessou todo o século XX e que perdura ainda, de certa forma, na cinematografia daquele país-continente. Gelo e degelo na esfera política, tal como a metáfora dos historiadores para descrever os apertos e relaxamentos do regime. Momentos em que o homem soviético era reassegurado, louvado, enaltecido; momentos em que o homem russo se impunha, portador de uma espécie de retorno do real que invadia o espaço e o tempo do cinema”, explica Lanari.

O primeiro capítulo, Da era tsarista à virada socialista, aborda a revolução de 1917, os anos turbulentos do imediato pós-revolução e a década de 1920. Destaque para filmes de Kulechov, Eisenstein, Pudovkin, e também de Kozintsev, Perestiani e Protazanov.Sem esquecer a produção na era pré-revolucionária, onde sobressai um nome como Bauer: “Durante muito tempo era como se a produção audiovisual na Rússia antes de 1917 pertencesse a um domínio excluído da história do cinema, como se não existisse, simplesmente. A verdade é que muitos filmes, bons e ruins, foram produzidos na Rússia tsarista”, diz João Lanari no livro.

O segundo capítulo, Stálin no poder: o regime de controlecomeçacom a ascensão de Stálin ao centro das decisões: o resultado disso é uma produção mais centralizada e controlada, mas com filmes de grande projeção, de diretores como Ermler, Tráuberg, Aleksandrov e Romm.

Oterceiro capítulo, Cinema em vias de guerra fala sobre a produção durante a Segunda Guerra Mundial e a Guerra Fria que se seguiu: a forma como impactaram as produções cinematográficas faz-se sentir desde o deslocamento dos estúdios para a Ásia Central, em um primeiro momento, ao uso do cinema como veículo de propaganda do comunismo, após a 2ª Guerra.Destacam-se nomes como Piriev, Kalatozov e Tchiaureli.

“Mesmo com a escalada de tensões internacionais na década de 30, a produção cinematográfica na URSS manteve-se estável: quarenta filmes em 1937, 44 em 1938, 57 em 1939, e 46 em 1940. Não obstante, as dificuldades para aprovação de projetos perduravam, limitando o número de filmes finalizados. A expectativa dos realizadores era de que o envolvimento do país em um conflito global pudesse atenuar barreiras ideológicas e injetar estímulo na produção, pelo efeito mobilizador que o cinema poderia proporcionar”, aponta João no livro.

O quarto e último capítulo, Rumo ao moderno cinema soviético, tem como pano de fundo a morte de Stálin, que ampliou as opções temáticas dos realizadores. “Os diretores passaram a ter muito mais liberdade de escolha dos temas: um exemplo disso é ‘Tenho vinte anos’, de Marlen Khutsiev, que fala sobre juventude e liberdade, um filme significativo desse novo período”, afirma João Lanari.

O livro apresenta ainda uma bibliografia anotada pelo autor, uma peculiaridade a mais para quem se interessa por história, em especial da perspectiva do cinema.

Para os amantes do cinema, a edição é bastante requintada e virá acompanhada de um cartaz do filme Um Homem com uma Câmera (1929), de Dziga Vertov. O livro é ilustrado por 60 fotos, muitas delas nunca publicadas no Brasil, gentilmente cedidas pelo estúdio Mosfilm, a tradicional produtora da antiga URSS e agora da Rússia, com apoio da CPC-UMES Filmes.

DEIXE UM COMENTÁRIO

Please enter your comment!
Please enter your name here