O Coletivo Alfenim, de João Pessoa – PB, chega em terras cariocas com o espetáculo “Memórias de um cão”, abalizada na história de Quincas Borba, o icônico romance de Machado de Assis. A montagem, dirigida por Márcio Marciano, estará no Teatro Municipal Café Pequeno de 10 a 13 de outubro (quinta a sábado/20h e domingo/19h), com entrada gratuita. A curta temporada faz parte da circulação do espetáculo pelas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro e Vitória, pelo Programa BR Distribuidora de Cultura, através da Lei Federal de Incentivo à Cultura.

O espetáculo procura expor as contradições de uma sociedade em formação que almeja reconhecer-se no espelho da modernidade, sem abrir mão de prerrogativas de classe como a exploração da mão de obra escrava, a espoliação do incipiente trabalho livre e a apropriação da riqueza nacional por parte de sua elite econômica, a partir da instrumentalização das instâncias do poder público, numa nação recém-saída da condição de colônia portuguesa. E o faz tendo em mente que as semelhanças com a atualidade não são mera coincidência.

A partir da leitura do romance Quincas Borba, o Coletivo Alfenim propõe uma alegoria tragicômica da desfaçatez com que a elite econômica e cultural brasileira tenta isentar-se de sua responsabilidade histórica pela barbárie que marca o processo de modernização do país. O espetáculo oferece ao público o olhar crítico de Machado de Assis sobre as contradições da formação do sujeito brasileiro. “A peça revela, através da ironia e do sarcasmo, as mazelas sempre atuais de uma sociedade marcada pelas relações de favor e clivada pela violência e pelo preconceito”, diz Márcio Marciano.

Encenada pelos atores Adriano Cabral, Lara Torrezan, Paula Coelho, Ricardo Canella, Verônica Sousa, Vítor Blam e Zezita Matos, a peça traz também parao palco músicas executadas ao vivopelos músicos Nuriey Castro (piano)e Mayra Ferreira (violoncelo, cavaquinho e percussão), mas há a participação dos atores que também se utilizam dos instrumentos. E as composições em boa parte são de autoria de todo o grupo, entretantoo público poderá ouvir também uma variação do hino nacional brasileiro pelo pianista e compositor norte-americanoGottschalk, um samba de Xisto Bahia (nota: Xisto de Paula Bahia foi um ator, cantor e compositor brasileiro. Xisto foi também o compositor da primeira música gravada no Brasil: o lundu “Isto é bom”), ou um tango, entre gêneros.

SOBRE O ESPETÁCULO

“Memórias de um cão” parte do estudo da obra de Machado de Assis para propor uma abordagem crítica das estratégias de dissimulação, engodo e autoengano que marcam no campo subjetivo e político as relações sociais do Brasil.

Narra a trajetória de ascensão e queda de Rubião, um mestre-escola interiorano que, às vésperas da abolição da escravatura, se muda para a Corte, após receber uma herança de seu benfeitor, Quincas Borba, um típico escravocrata, autodenominado filósofo, que ocupa seus dias ociosos de proprietário e rentista com especulações amalucadas sobre a “natureza humana”.

Como condição para usufruir a herança, o recém-endinheirado deve cuidar do cão Quincas Borba, que tem o mesmo nome de seu benfeitor. Essa exigência testamentária, uma variante do pacto fáustico, traduz na prática as determinações do “Humanitismo”, espécie de doutrina heterodoxa criada por Quincas Borba, cujo princípio pode ser sintetizado na máxima “Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas”.

Tornado capitalista da noite para o dia, Rubião irá flanar pelas ruas elegantes de um Rio de Janeiro em processo vertiginoso de modernização, buscando inserir-se num círculo de relações de favor, marcadas pelo preconceito de classe e pela futilidade de um mundo apartado do trabalho.

Enquanto torra o dinheiro da herança, o mestre-escola experimenta uma vida de luxos e compensações imaginárias a tal ponto irreais que pensa ser o próprio Imperador francês Napoleão III, numa clara alusão às pretensões da elite brasileira de tornar o Brasil uma nação do primeiro mundo, com a importação de um liberalismo fora do lugar e vistas grossas ao tráfico de escravos.

Sobre o Programa BR Distribuidora de Cultura: é uma seleção pública que tem como objetivo contemplar projetos de circulação de espetáculos teatrais não inéditos, em parceria do Ministério da Cultura. No último edital foram investidos R$ 15 milhões. Ao todo, foram escolhidos 57 espetáculos, representantes de todas as regiões do País, com apresentações em todos os estados.

SERVIÇO:
“Memórias de um cão”
Data: 10 a 13 de outubro/2019
Horário: Quinta a sábado/20 h e domingo/19 h
Local: Teatro Municipal Café Pequeno (Av. Ataulfo de Paiva, 269 – Leblon)
Classificação etária: 14 anos
Foto: Karen Montija

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