Após estrear com casa lotada no Teatro Dulcina, o espetáculo “SOLANO, VENTO FORTE AFRICANO” volta à cena em grande estilo. O espetáculo reestreia na FLUP (Festa Literária das Periferias), que este ano homenageia Solano Trindade, com apresentação dupla no dia 20 de outubro e segue em cartaz até o dia 1º de dezembro na Casa de Mysterios, na Gamboa. Com dramaturgia de Elisa Lucinda e Geovana Pires (que também assina a direção), direção musical de Beà e direção de movimento de Valéria Monã, a montagem lança luz não apenas sobre a obra, mas também sobre o aspecto humano e político do poeta pernambucano que desenvolveu sua múltipla potencialidade artística com o olhar sempre voltado à realidade do negro brasileiro.

De maneira cadenciada e auxiliado pela pluralidade musical brasileira, a peça é permeada por música, canto, dança e sapateado, conduzindo o espectador de forma lúdica à trajetória de Solano. A narrativa evidencia episódios marcantes, como seu convívio com a atriz Ruth de Souza, amiga que o abrigava após as manifestações políticas pelos direitos dos trabalhadores; e o momento em que “Mulher Barriguda”, cuja letra é de Solano e compreendida como canção de protesto à ditadura militar, foi gravada pelo grupo Secos e Molhados, em 1973.

“A voz de Solano se faz necessária neste momento porque, infelizmente, tudo que ele falou há 70 anos segue em pauta. O Brasil ainda sofre com essa ferida aberta que é o racismo; os direitos dos trabalhadores estão caindo por terra e o povo vem sendo massacrado. A luta de Solano se dava com armas como a poesia, a palavra e o amor”, ressalta Geovana Pires, diretora e idealizadora do projeto. Dada sua militância política pacífica, Solano é considerado por muitos o Gandhi da literatura popular brasileira, mesmo tocando em pontos nevrálgicos – dentre eles, a dificuldade de inserção do negro no mercado de trabalho.

Reiterando essa demanda, elenco e equipe técnica do espetáculo são predominantemente formados por profissionais negros. “Solano tem profunda importância na unificação dos movimentos negros”, reforça Geovana. Nordestino como Solano, o ator Val Perré foi escolhido para dar vida ao “poeta do povo”, que foi ainda fundador do Teatro Popular Brasileiro – companhia formada basicamente por domésticas, estudantes, comerciários e operários na década de 1950.

“Tive a dimensão da importância da obra do Solano ao receber o convite para interpretá-lo e, como ator negro e nordestino, fico pleno de prazer e reconheço esta responsabilidade. Temos uma missão de levar a obra de Solano a todos, dando voz e continuidade, percebendo a mensagem de liberdade e o amor que é latente na sua obra”, salienta o ator, que começou a carreira no Balé Folclórico da Bahia até ser descoberto por Gabriel Vilela e estrear em “O Sonho” (1995).

Cidade para onde se mudou ao retornar do período em que esteve na Europa, Embu das Artes (SP) foi o local escolhido para o espetáculo realizar sua primeira apresentação, em 13 de maio deste ano. “A família acompanhou todo o processo e tivemos a honra de ter seu filho, Liberto Trindade, como consultor das músicas populares que Solano usava em suas peças. Contaram-nos muitas histórias que não sabíamos e as inserimos na dramaturgia. Foi um momento mágico e emblemático”, relembra Geovana. “Este espetáculo é um grito de liberdade. Creio que a mensagem mais importante é a consciência de que estamos em guerra, que o Estado está dizimando nossa juventude negra e que temos que nos unir para vencer. É urgente e todos estão envolvidos”, convoca.

SERVIÇO:
“SOLANO, VENTO FORTE AFRICANO”
Apresentação Especial: 20 de outubro – reestreia na FLUP com sessão dupla
Casa de Mysterios: 1ª sessão – 16h / 2ª sessão – 19h
Temporada: 25 de outubro a 1º de dezembro
Sexta-feira e sábado – 20h / Domingo – 19h
Local: Casa de Mysterios, Rua Pedro Ernesto, 21 – Gamboa

Foto: Patrícia Lino

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