O poeta pernambucano Jota Rodrigues foi um multiartista – cordelista, músico (estudioso da música popular brasileira) e artista plástico. Era também especialista em medicina popular, cultivava ervas e fazia elixir para os mais diferentes males.

Sua incrível trajetória – do menino pobre e analfabeto até os 8 anos, que nasceu no município de Águas Belas, no semiárido de Pernambuco, a patrono de diversas bibliotecas na Baixada Fluminense – será recontada, a partir do dia 28 de novembro, na Sala do Artista Popular no Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (CNFCP-Iphan). A exposição pode ser conferida até 8 de dezembro, de graça, no Museu de Folclore Edison Carneiro, no Catete.

Jota deixou um legado imenso – inclui mais de 400 folhetos de cordel, xilogravuras, fotografias, entrevistas gravadas em áudio e vídeo, discos, novelas e até roteiro de filmes. Parte destes registros compõem a mostra, sob curadoria dos antropólogos Ricardo Gomes Lima e Ana Carolina Nascimento. Outro mérito da exposição é comemorar a 200ª edição da Sala do Artista Popular (SAP), 36 anos depois da inauguração deste espaço, em 1983, justamente com a exposição Jota Rodrigues: folhetos, romances/literatura de cordel.

Serão apresentados ao público e colocados à venda folhetos de cordel de sua autoria, uma antologia publicada em livro, uma caixa para colecionadores com 250 títulos (os últimos exemplares impressos pelo próprio artista) e ainda camisetas e bastidores em madeira com tecidos impressos com suas xilogravuras. Também integram a mostra manuscritos, xilogravuras, ferramentas de trabalho, fotografias, gravações e os objetos que Jota Rodrigues reuniu ao longo de mais de oito décadas em suas atividades na música, na medicina popular e na poesia.

No dia da inauguração será também lançado o livro Arte, Poesia e seus (en) cantos – Literatura de cordel nos territórios culturais (Editora Areia Dourada, SP, 2019, 248 págs), organizado pelas historiadoras e pesquisadoras Sylvia Nemer e Elis Regina Barbosa Angelo, que reúne trabalhos de professores, pesquisadores e poetas sobre a produção de literatura de cordel no Rio. Durante o lançamento, às 16h, vai acontecer uma mesa redonda reunindo os autores e alguns cordelistas.

A literatura de cordel foi reconhecida pelo Iphan em 2018 como Patrimônio Cultural Brasileiro.

A influência do pai violeiro e a do primeiro ofício, guiando um cego que memorizava versos e cantava de porta em porta, foram decisivas para a arte de Jota Rodrigues. “Aquilo foi me envenenando de uma tal maneira que o meu caminho era só aquele mesmo, não tinha outra coisa que me dominava”, contou. Mas à vontade de criar histórias se impunha a barreira de não saber ler e escrever. Foi o poeta cego que o incentivou a se alfabetizar, aconselhando-o a catar pedaços de carvão ou tijolo e riscar nas calçadas, copiando o formato das letras.

Em 2008, Jota ganhou o Premio Culturas Populares do Minc, atual Secretaria Especial de Cultura. Com o dinheiro construiu um pequeno centro cultural na sua casa, em Nova Iguaçu, onde reuniu suas grandes paixões, literatura de cordel, ervas medicinais e música popular. Na sala de música, reuniu sua coleção de livros e discos, enciclopédias e dicionários, uma vitrola, chapéus com que se apresentava e instrumentos musicais. Na sala dedicada à medicina popular, expôs alguns preparados em garrafadas, fotografias de bancas de ervas e raízes, livros sobre o assunto e cartazes impressos com o anúncio de seu trabalho e explicações sobre os princípios de seu entendimento sobre o corpo humano.

A sala dedicada à literatura de cordel é o maior espaço do Centro. Lá reuniu folhetos de cordel impressos prontos para venda, separados por título e classificados em assuntos: ‘tragédia’, ‘social’, ‘política’, ‘saúde’, ‘futebol’, ‘religião’, ‘cantores’, ‘educação’, ‘infantil’. Ali Jota organizou uma lista em que relacionava sua produção escrita entre 1946 e 2008 (apesar de ter continuado escrever depois desta data), somando 408 folhetos de cordel de 8 páginas (todos em sextilhas e septilhas), 44 romances (como chama os folhetos de 16 a 56 páginas), 14 folhetos de cordel infantis, 5 novelas, com 109 a 180 capítulos e 5 fil mes. As novelas eram apresentadas nas palestras que fazia nas universidades com projeção de slides.

“Depois de sua morte, a família continua mantendo o espaço cultural, um dos poucos da Baixada, recebendo as turmas de escola e especialistas em cultura popular para pesquisar no acervo – assim como Jota fazia. Mas depois de uma chuva de granizo, que destruiu o telhado do espaço no mês passado, toda a coleção está espalhada pela casa da família. No momento, sua família tenta conseguir verbas para consertar o telhado e reabrir o espaço”, conta Ana Carolina Nascimento.

Serviço:
Exposição “Jota Rodrigues: o verso e a vida”
Museu de Folclore Edison Carneiro – Rua do Catete, 179.
Período: 28 de novembro a 8 de dezembro de 2019

Foto: Raquel Dias Teixeira

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