O Brasil tem na figura de Padre Cícero (1844-1934) um exemplo de dedicação à fé cristã. No Nordeste, onde ficou conhecido como “padim Ciço”, o sacerdote ganhou uma dimensão ainda maior, sendo venerado até hoje (sua estátua em Juazeiro do Norte é um exemplo disso). Por trás de cada mito há a figura humana. No caso de Cícero, o indivíduo Cícero Romão Batista, nascido no Crato, Ceará. Esse homem, com suas angústias, idiossincrasias e características que o marcaram é a figura central de “Cícero – A anarquia de um corpo santo”, novo solo do ator Samir Murad.

O espetáculo, escrito e idealizado pelo próprio ator, encerra a trilogia sobre Teatro, Vida e Genealogia, iniciada em 2001 com “Para acabar de vez com o julgamento de Artaud” (escolhido um dos dez melhores espetáculos daquele ano pela crítica Bárbara Heliodora) e continuada com “Édipo e seus duplos” (2008). Em ambos, o trabalho físico do ator foi uma ferramenta de suma importância para contar as histórias. E isso ainda é latente em “Cícero – A anarquia de um corpo santo”, espetáculo com direção de Daniel Dias da Silva que estreia no dia 04 de outubro, no Centro Cultural Municipal Oduvaldo Vianna Filho – Castelinho do Flamengo, no Flamengo, onde cumpre temporada até o dia 28 do mesmo mês.

Samir Murad tem nos desígnios de Antonin Artaud (1896-1948) um norte para seu trabalho de ator. Murad parte do princípio de que o ator é o principal construtor da cena. De pé sobre uma extensa passadeira, que lhe serve de cenário, ele está sozinho em cena. Sozinho em termos… Ele usa de seu corpo e voz para nos mostrar esse Cícero que está nos estertores de sua vida, já com a visão debilitada e sofrendo das agruras intestinais. Esse é o ponto de partida da trama, na qual diferentes relatos e narrativas (alguns cantados como ladainhas) são minuciosamente costurados como nas tramas de uma bordadeira.

E por essas veredas passam personagens da história de Cícero – real ou onírica. E aqui cabe uma explicação importante: Cícero (ante)viu, através dos sonhos, acontecimentos que acabaram por direcionar os rumos de sua vida e que, alguns deles, marcaram a história do próprio país – como a visão da deposição da Família Real Brasileira 20 anos antes de ela ocorrer de fato.

Como já dito, Samir Murad não está só. E empresta corpo e voz a diferentes nomes que passaram pela vida de Cícero. Cada um deles com uma dinâmica, um timbre, uma composição. Há desde personagens históricos como Jesus Cristo – que, em sonho, pede a Cícero para olhar por aquele povo do Nordeste – a Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião. Há também figuras cruciais na vida do personagem como o médico Floro Bartolomeu, seu amigo; o pai, Joaquim Romão Batista, fundamental para sua ordenação (ele, que morrera vitimado pela cólera, alerta o filho, num sonho, para retomar seus estudos) e, claro, a beata Maria Madalena de Araújo, com quem ocorreu o que ficou conhecido como o “Milagre da hóstia” – o que propagou a fama de milagreiro do padre.

Serviço:
“Cícero – A anarquia de um corpo santo”
Temporada: De 06 a 15 de dezembro
Dias e horários: Sextas e sábados as 20h, domingo as 19h
Local: Casa 136 Laranjeiras (Rua Ipiranga ,136- Laranjeiras)
Duração: 75 minutos
Classificação: 12 anos

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