E lá se vão 15 anos desde que Moacyr Luz reuniu um grupo de amigos para uma roda de samba, à sombra de uma caramboleira, no mais improvável dos dias – era uma segunda-feira, no Clube Renascença, espaço fundado há quase 70 anos pela classe operária, em sua maioria trabalhadores negros, no coração do Andaraí, Zona Norte do Rio de Janeiro. Nascia o Samba do Trabalhador, que chega à idade de debutante consolidado como um dos mais importantes movimentos de resistência cultural do país.

Depois de centenas de segundas-feiras e quilômetros rodados país afora, Moacyr Luz e Samba do Trabalhador lançam o álbum “Fazendo Samba”, quinto disco do grupo, que também soma 3 DVDs ao vivo. A obra chega a todas as plataformas digitais com 16 faixas, 12 delas inéditas, e conta com as participações de Leci Brandão, João Bosco e Roberta Sá.

“Depois de 15 anos juntos, chegamos a um momento de amadurecimento harmônico e do nosso pensamento musical. Posso dizer que hoje somos um só organismo. Tocamos e pulsamos juntos, o entrosamento fica mais afinado a cada vez que nos encontramos, seja no Renascença, no estúdio, palcos e terreiros pelo país” aponta Moacyr Luz, que também assina a direção artística do álbum. “A escolha do repertório se desenrolou naturalmente, reunindo canções nossas e parcerias inéditas com amigos e velhos conhecidos da música brasileira, além de quatro sucessos que já estão na boca do público, que agora ganham a nossa cara e uma pitada do que o público encontra nas nossas segundas-feiras sagradas”, afirma o bamba.

E logo de início, “Fazendo Samba” diz a que veio com “Loucos de inspiração” (Moacyr Luz e Wanderley Monteiro). O abre-alas do disco soa como uma ode ao gênero, suas vertentes e ao ofício do sambista. Em seguida, “Das bandas de lá” apresenta uma inédita parceria entre Moacyr Luz e Xande de Pilares, retratando em versos e melodia um conflito de classes típico das grandes capitais brasileiras.

O álbum segue com mais uma tabelinha entre Moacyr e Xande, em “Fora de moda” a cuíca de Junior de Oliveira faz coro com a melancolia de um “sujeito comum” alheio à modernidade e às urgências do mundo contemporâneo. A faixa “A cara do Brasil” (Moacyr Luz e Toninho Geraes) brinda o público com a primeira participação especial do álbum: Roberta Sá cantando uma história de luta e resistência personificada pelo próprio samba.

“Reza pra agradecer” (Nego Álvaro, Pretinho da Serrinha e Vinicius Feyjão) surge em seguida revelando a potência vocal de Nego Álvaro, através da canção que já ganhara os palcos com Maria Rita. “Eu sou batuqueiro” descortina uma parceria inédita entre Moacyr Luz e Sereno, em um samba de terreiro interpretado por Mingo Silva, que tece homenagens às imortais Dona Ivone Lara, Beth Carvalho e Vovó Maria.

“Fazendo Samba” avança com mais uma composição de três dos filhos destes 15 anos de Samba do Trabalhador. “Quem dera o tempo” (Alexandre Marmita, Mingo Silva e Nego Álvaro) é um samba romântico com toque lírico que faz lembrar a obra do saudoso Luís Carlos da Vila, figura fundamental na gênese do Samba do Trabalhador. O álbum segue apresentando inéditas de integrantes do grupo, com Gabriel Cavalcante e sua voz grave homenageando a própria roda do Andaraí em “Segunda-feira” (Gabriel Cavalcante e Roberto Didio).

Ultrapassando a metade, o disco continua cheio de fôlego e convida a segunda participação especial. João Bosco cantando “O ronco da cuíca”, clássico fruto de sua parceria com Aldir Blanc. Depois do hit, mais uma novidade: na faixa-título “Fazendo samba” Alexandre Marmita interpreta a tabelinha entre Moacyr Luz e Zeca Pagodinho, acompanhado pelo suingue e o trombone legítimo de um samba sincopado.

Nego Álvaro volta ao microfone em sua composição “Mãos de Deus”, canção com um pé no recôncavo baiano e outro na Vila Catiri, bairro carioca onde o bamba iniciou sua batucada. Em seguida, sempre convicto de que não se faz samba sem homenagear suas grandes baluartes, o Samba do Trabalhador convida Leci Brandão para cantar “Sorriso negro” (Adilson Barbado, Jair e Jorge da Portela), imortalizada por Dona Ivone Lara.

O álbum entra em sua reta final ganhando ares de gafieira com “O samba veio me buscar” (Moacyr Luz e Roberto Didio). O baú de uma das parcerias mais prolíficas da música brasileira ainda guarda preciosidades inéditas, é o caso de “Camunga”, homenagem da dupla Aldir Blanc e Moacyr Luz a Camunguelo (1947 – 2007) um dos maiores sambistas de sua geração.

“Pra batucar” enumera os elementos percussivos que fazem pulsar o Samba do Trabalhador, em um samba de roda composto por Nego Álvaro e Mingo Silva. O álbum chega ao grand finale com a inspirada “Canta sabiá” (Moacyr Luz e Sereno), um retrato poético sobre o amor e suas desilusões. Triste e bonita, melancólica e nostálgica, a faixa encerra o álbum demonstrando Moacyr Luz e o Samba do Trabalhador reúnem a força e experiência dos grandes com alma de debutante.

(Foto: Marluci Martins – arte: Biscoito Fino)

 

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