Em 2018, a ex-apresentadora da Fox News, Gretchen Carlson, abriu um processo contra o CEO, Roger Ailes, do canal por agressão sexual. O que parecia apenas um rumor, se tornou um escândalo de proporções mundiais. O filme, que é baseado em eventos reais, possui alguns diálogos ficcionais apenas por necessidade dramática. O longa traz as maiores atrizes de suas respetivas gerações, Charlize Theron e Nicole Kidman como as personagens reais Megyn Kelly e Gretchen Carlson, respectivamente. Por último, mas não menos importante, a mais nova atriz em ascensão, Margot Robbie, que interpreta um personagem fictício, mas com certa relevância.

Antes de começar a falar de roteiro, e planos de câmera, precisamos falar o que rendeu a indicação ao Oscar 2020 para este filme, a maquiagem. O pessoal da maquiagem quis deixar os atores mais similares com as pessoas reais. O filme abre com Charlize, que apesar de ainda parecer ela, está completamente diferente. Mas John Lithgow está irreconhecível, se você não o identificar pela voz, é impossível saber quem é, até os créditos revelarem. No caso de Kidman, ela realmente está parecida com a apresentadora, porém ainda é fácil identificar quem é. Feito essas observações merecidas, vamos para o roteiro.

O roteiro faz uso da quebra da quarta parede para explicar certos fatos e pessoas, porém o filme usa esse artifício e o joga fora como lhe convém. Portanto acaba soando muito mais como artifício didático desnecessário, do que para uma narrativa.

O filme conta com protagonistas com um fator em comum: as três personagens, que para chegar onde chegaram, tiveram que sofrer abusos sexuais. É ai que a parte esperta do filme entra, o discurso feminista contra o sistema é muito forte e muito bem feito. Em determinado momento uma personagem, meramente ilustrativa, sabe que vai ter ceder as pressões sexuais de seu chefe, e vemos todos os pensamentos delas, todos os artifícios que inúmeras mulheres usam todos os dias para tentar se defender de homens repulsivos.

A maneira como o sistema vai corrompendo as próprias vítimas é outro elemento de esperteza, porque a união das mulheres é sua força, sem isso elas são marionetes de seu chefe. Esse é o fato mais triste de todos, porque tudo isso é verdade.  O filme também revela que esse sistema de abuso, principalmente de Roger, não é uma questão de desejo, é uma questão de poder.

O diretor, Jay Roach, tenta deixar o filme leve com algumas cenas que soam levemente cômicas. Até que essa técnica funciona, ele consegue deixar o filme mais suave, porém é apenas uma maquiagem, em cima de um roteiro real e assustador. Em uma determinada cena vamos Margot Robbie sendo abusada, ela é forçada a levantar a saia mostrando sua roupa íntima para o chefe, como prova de lealdade. Por um lado a cena causa o que pretende, repulsa total. Entretanto, o diretor acaba objetificando a atriz quando faz closes frontais desnecessários em suas pernas, e quando ela revela a roupa íntima. A câmera de costas, e os rostos de Margot e Lithgow teriam sido mais que o suficiente.

Tanto o diretor quanto o roteiro tem um verdadeiro prazer, e dever sob certo aspecto, em mostrar como a figura de Donald Trump é detestável, e como ele próprio possui um desprezo pelas mulheres. Eles também denunciam a ala paranoica da conspiração republicana, os famosos malucos, onde até o Roger Aile acha que está sendo processado, por conta de uma tentativa de mata-lo por ordem de Obama. Essas são as partes mais cômicas, e que lembram bastante o nossa cenário político da ala conservadora.

O filme em si grita repulsa, e mostra uma realidade horrenda que, apesar de avanços grandiosos estarem sendo feitos, o horror ainda ocorre e se repete.

Foto: Reprodução

 

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