Aline Filócomo faz lançamento, bate-papo e leitura dramática do seu novo texto, “Moscou Para Principiantes”, no YouTube da Editora Javali, no dia 05 de novembro, às 20h. Aliás, a leitura será realizada pelas atrizes Fernanda Stefanski, Natacha Dias e Rita Grillo. Aliás, a estreia oficial do espetáculo ainda não tem data prevista.

O texto, que transita entre a ficção e a não-ficção, surgiu da transcrição poética de conversas estabelecidas entre as artistas a partir de temas presentes em “As Três Irmãs”, de Anton Tchekhov e, do registro de encontros entre a dramaturga e um grupo de mulheres da terceira idade. A ideia de “Moscou Para Principiantes” é criar uma reflexão sobre os sentidos atuais do trabalho pela ótica da mulher, relacionando esse tema com questões como o “desejo e a capacidade de criação” e “o impulso de concretização de outras realidades possíveis”.

Com prefácio de Leonardo Moreira e posfácio de Natacha Dias, “Moscou Para Principiantes” de Aline Filócomo tangencia discussões importantes do atual momento político brasileiro, quando é colocado em pauta o fim das seguranças trabalhistas e previdenciárias. Desse modo, cada vez mais a existência é estritamente associada à capacidade humana de produzir: o tempo é transformado em matéria consumível, e o ataque generalizado à arte e à cultura anulam o direito à criação e contemplação.

A ideia de investigar esse tema surgiu há 5 anos, quando as artistas tiveram uma conversa profunda sobre o reconhecimento de certo esgotamento nos antigos moldes de relacionar o teatro às próprias vidas e o desejo de encontrar uma forma criativa coerente com a nova imagem de si mesmas que a meia-idade começava a construir.

Elas também compartilharam o fim de certas expectativas cultivadas sobre a profissão e a urgência de reprogramar seus rumos profissionais e reinventar anseios pessoais. Alguns temas desse encontro entre as artistas tinham semelhança com a peça de Tchekhov e eram diretamente influenciados pela atual crise política brasileira, que começava a interferir de modo direto e impactante nas relações cotidianas e profissionais já naquele momento.

Como no texto de Tchekhov, os diálogos de “Moscou Para Principiantes” carregam a marca da aparente segurança de uma classe que, embora viva de modo confortável, esconde o impacto de um mundo em ebulição e sofre as consequências da falta de um projeto concreto de mudança. “Viver”, “trabalhar” e “criar” eram há 100 anos – e ainda o são hoje – palavras à espera de um novo sentido, ainda desconhecido.

Diferente do discurso original das três irmãs tchekhovianas, nesta obra o trabalho não aparece apenas como dispositivo de fuga pessoal, mas como urgência vinculada à sobrevivência, tal qual ocorre com a maioria das mulheres em nosso país. Para elas, a ideia de autorealização é em si mesma uma utopia impossível, problema abafado pelo acúmulo de tarefas em jornadas diárias mal recompensadas financeira e emocionalmente.

Para as mulheres contemporâneas, não basta sobreviver do trabalho, como dizem a sociedade e uma das personagens da peça tchekhoviana. É necessário sobreviver ao trabalho. Assim como as três irmãs sentem-se velhas aos 20 e poucos anos, para as mulheres de agora, o tempo é o elemento que consome sua capacidade de produzir, de gerar renda, de ter filhos e, principalmente, de criar uma existência autêntica.

Essas questões são abordadas por personagens identificadas como “a da direita”, “a da esquerda” e “a do meio”. Como o próprio momento atual, a linguagem opera por um jogo de tentativa e erro, na construção e desconstrução de pontos de vista de três figuras que transitam entre ficções e realidades variadas. Ora parecem ser as personagens Olga, Macha e Irina de Tchekhov, ora são três idosas fictícias, ora são as próprias atrizes que dão seu testemunho a partir de experiências pessoais e coletivas vivenciadas. Como uma matryoska, boneca russa que remete à imagem da mulher fértil, uma camada contém a outra.

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