“Maior Espetáculo na Terra” deixou de arrecadar o valor estimado entre 5 e 10 bilhões de reais.

Sem a tradicional festa na avenida, sem as ruas lotadas de pessoas seminuas, fantasiadas e suadas sob o calor de rachar que faz a cerveja ficar quente dois minutos depois que se abre a lata, restou passar os dias de folia relembrando as edições passadas do carnaval, mandando mensagens, fotos e vídeos para os amigos no zap, dizendo: “Ó, ano que vem! Ano que vem, meus amigos, será arrasador…”, fazendo votos que por pouco não beiram ao desespero que 2022 chegue o quanto antes para que nós possamos voltar a nos aglomerar.

Ao menos pude comprovar com meus próprios olhos que somos mesmo muito inventivos. Os Stories do meu Instagram não me deixam mentir. A solidão compartilhada em tempo real deu lugar ao carnaval das lives que, mais uma vez, fez bonito e tentou nos abraçar em casa. Corri pra assistir na sexta-feira, 12, o bloco do Amigos da Onça, transmitido ao vivo do Teatro Riachuelo, no YouTube. No sábado, 13, Maria Bethânia desfilou com pompa pela plataforma de streaming Globoplay. Mais cedo, no mesmo dia, Ivete e Claudia Leitte animaram a festa e por aí foi, no entanto, bastou um olhar mais aprofundado para perceber que esse carnaval não se resumiu à palavra saudade, mas sim, à palavra tristeza.

Sem a apresentação das escolas de samba que reúnem centenas de pessoas na Sapucaí e sem os mais de 440 blocos que se movimentam nas ruas do Rio, o maior carnaval do mundo considerado, muitas vezes, como o “Maior Espetáculo na Terra” deixou de arrecadar o valor estimado entre 5 e 10 bilhões de reais. E aí, caiu a ficha: carnaval é mais que folia, é economia. Do catador de latinhas à rede hoteleira, passando pela vendedora ambulante e restaurantes. Aliás, sem deixar de esquecer quem costura as roupas que serão apresentadas na avenida e os vendedores de fantasias nas lojas. As pessoas que montam aquelas estruturas.

Enquanto tentava me distrair e você, leitor, também tentava fazer o mesmo, a ausência do carnaval deixou sem ter o que comer os mais vulneráveis. Os segmentos são tantos que nem consigo enumerar e ter a visão macro disso nos traz para a realidade triste que realmente é.

Nas periferias, os trabalhadores formais e informais que via na festa a possibilidade de ganhar um dinheiro a mais, ficaram mais vulneráveis. O que será que aconteceu com todas essas pessoas? Eu fiquei pensando nisso quando desisti de dançar sozinha dentro de casa e sentei para assistir programas de entretenimento que nos fazem chorar e notícias atualizadas do país que nos mostram a falta de políticas públicas para o enfrentamento das desigualdades, aumento no preço da alimentação e o número crescente de mortes por Covid-19. Por essas e outras, o pragmatismo venceu e fez com que esse fosse o carnaval mais triste de todos os tempos.

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