As Aves da Noite
Foto: Priscila Prade

Com direção de Hugo Coelho, o drama “As Aves da Noite”, escrito por Hilda Hilst, há 52 anos, tem estreia on-line pelo canal Curadoria Hilst no YouTube, nos dias 5, 6 e 7 de outubro, às 20h. Após sessões dos dois primeiros dias, o diretor e elenco participam de bate-papo com o público. Na sequência, a montagem segue em circulação pelos canais virtuais do Teatro Cacilda Becker, Teatro João Caetano, Teatro Paulo Eiró e Teatro Arthur Azevedo, sempre com acesso gratuito.

O enredo de “As Aves da Noite” parte da história real do padre franciscano Maximilian Kolbe que, em um campo de concentração nazista de Auschwitz, apresentou-se voluntariamente para ocupar o lugar de um judeu sorteado para morrer no chamado “porão da fome” em represália à fuga de um prisioneiro.

Segundo o diretor Hugo Coelho, “esta é uma versão contemporânea do texto de Hilda. Não é uma peça sobre Auschwitz, partimos de Auschwitz, pois nosso lugar de fala não é o da reconstituição”.

No porão da fome, a autora coloca em conflito os prisioneiros condenados a morrer na cela: o Padre, o Carcereiro, o Poeta, o Estudante e o Joalheiro, que são visitados pelo Oficial da SS, pela mulher que limpa os fornos e por Hans, o ajudante da SS. Aliás, na montagem, eles aparecem isolados, confinados em gaiolas como um signo, uma alusão à prisão onde a história se passa, mas também à nossa impossibilidade de contato físico, nesse momento de pandemia.

“A primeira coisa que os governos totalitários fazem ao prender alguém é destituí-lo da dignidade humana e submetê-lo ao sofrimento extremado, e isso os nazistas fizeram com requintes inimagináveis de crueldade”, comenta o diretor. Segundo ele, a proposta de concepção de Hilda Hilst é muito clara, colocando as personagens em estado de reflexão sobre suas próprias condições no confinamento. A leitura que a autora faz dos aspectos éticos e humanos passam por questionamentos sobre Deus, sobre o mal e sobre a crueldade.

Nos diálogos estão o embate entre a vida e o que lhes resta, os devaneios entre o desespero e o delírio. A montagem de “As Aves da Noite” busca elucidar a humanidade e densidade contida no texto, mergulhando nas possibilidades inesgotáveis do drama para emergir na poética da tragédia.

Sobre o texto, Hilda Hilst falou, “Com “As aves da noite”, pretendi ouvir o que foi dito na cela da fome, em Auschwitz. Foi muito difícil. Se os meus personagens parecerem demasiadamente poéticos é porque acredito que só em situações extremas é que a poesia pode eclodir viva, em verdade. Só em situações extremas é que interrogamos esse grande obscuro que é Deus, com voracidade, desespero e poesia”.

O espetáculo foi idealizado pelo produtor Fábio Hilst para ser apresentado presencialmente, mas diante da pandemia da covid-19 precisou ser gravado em vídeo, 80 anos após a morte de Maximilian Kolbe, exatamente no momento em que o mundo vive uma experiência de confinamento.

Além disso, Hugo Coelho afirma que o propósito do espetáculo é trazer à cena o discurso artístico poderoso e contundente de Hilda Hilst. “As Aves da Noite nos faz encarar toda a barbárie do poder, do domínio, do autoritarismo, das torturas nos porões das ditaduras. Auschwitz é uma ferida aberta na humanidade para a qual não há palavras que qualifique. Não podemos permitir que a violência e a barbárie sejam normatizadas ao longo da história. Por isso esta obra de extrema qualidade literária é tão importante para o momento em que vivemos”, finaliza o encenador.

Maximilian Kolbe morreu em Auschwitz, em 1941, e foi canonizado em 1982, pelo Papa João Paulo II. São Maximiliano é considerado padroeiro dos jornalistas e radialistas e protetor da liberdade de expressão.

Serviço
Temporada: 5, 6 e 7 de outubro. Terça a quinta, às 20h
Exibição on-line: Youtube/CuradoriaHilst (não ficará disponível após horário agendado)
Grátis. Duração: 75 min. Gênero: Drama. Classificação: 16 anos.
Haverá bate-papo com o público após sessões dos dias 5 e 6/10.

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