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Sabina Spielrein tem obras completas publicadas pela Editora Blucher

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Textos de Spielrein ficaram esquecidos até 1977, quando foi descoberto um baú, no Instituto de psicologia da Universidade de Genebra.

Sabina SpielreinA editora Blucher lançou pela primeira vez em português, as obras completas da psicanalista russa Sabina Spielrein. Organizada e comentada em textos críticos por Renata Udler Cromberg, a obra está dividida em três volumes e mostra o pioneirismo da mulher que, a despeito de deixar um trabalho prolífico e inovador publicado nas revistas mais importantes de psicanálise da primeira metade do século, foi relegada a anos de apagamento.

“Os textos de Sabina Spielrein foram ,certamente, revolucionários e anteciparam conceitos que depois foram abordados na psicanálise, psicologia e na pedagogia. Em 1911, com apenas 25 anos e já formada em medicina, ela publica sua tese sobre o caso de uma paciente que é o primeiro trabalho a analisar o discurso de um esquizofrênico. Isso mostrou que a psicanálise e a psiquiatria clínica tinham como entender a linguagem, aparentemente sem sentido, desses pacientes”, conta Cromberg que analisou os escritos de Spielrein em seu doutorado e pós-doutorado.

A autora e organizadora da coletânea ressalta que, além da tese sobre esquizofrenia, Sabina Spielrein teve trabalhos pioneiros sobre temas diversos, como desenvolvimento e psiquismo infantil e chegou inclusive a antecipar o conceito de pulsão pela morte, depois abordado por Freud.

No primeiro volume da coleção, além de um texto introdutório sobre a vida de Spielrein, estão seus primeiros ensaios, como a tese médica “Sobre o conteúdo psicológico de um caso de esquizofrenia”, de 1911, “A destruição como origem do devir”, de 1912, e “A sogra”, de 1913. O volume traz ainda uma carta enviada a Carl G. Jung, que foi seu psicanalista e depois amante, expondo a concepção de Sabina Spielrein sobre o aparelho psíquico.

O segundo volume é composto por ensaios sobre o conhecimento do psiquismo infantil, a origem da linguagem, o pensamento e a noção de tempo na criança. Integram o volume os textos: “Contribuições para o conhecimento da alma infantil”, de 1912, “A origem das palavras infantis papai e mamãe”, de 1922, “Algumas analogias entre o pensamento da criança, o do afásico e o pensamento subconsciente”, de 1923, “O tempo na vida psíquica subliminar”, de 1923, e “Desenhos de olhos abertos e fechados”, de 1931. Há ainda outros 27 artigos curtos escritos entre os anos de 1913 e 1931.

“Sobretudo o segundo volume, é do interesse não só de psicanalistas, mas também de pedagogos, educadores, fonoaudiólogos e linguistas. Isso porque ela faz uma conexão pioneira entre psicanálise, linguística, desenvolvimento psicológico e educação. Além disso, é uma obra transdisciplinar inédita com abordagens em neurociência e psicanálise emergente”, afirma.

Já o terceiro volume conta com a publicação inédita dos quatro diários de Spielrein e análises sobre sua relação amorosa e troca intelectual com Jung, assim como da amizade e admiração profissional entre ela e Freud. Uma terceira análise aborda os possíveis motivos do esquecimento do trabalho tão pioneiro e importante de Spielrein na história da psicanálise.

“Acredito que ela foi esquecida por vários motivos e ser mulher foi um deles, mas talvez não tenha sido o mais importante”, afirma Cromberg.

Spielrein foi uma mulher, judia, russa e uma das primeiras psicanalistas da história. Foi contemporânea de Freud, Jung e de Jean Piaget de quem foi analista, e fez uma grande travessia geográfica, morando em Zurique, Berlim, Lausanne, Genebra, Moscou e Rostov do Don. Embora seu trabalho tenha passado anos em esquecimento, atualmente ela é lembrada, chegando, inclusive, a ser retratada no filme “Um método perigoso” (2012), do diretor David Cronenberg.

“Ela ficou entre Jung e Freud, mas sobretudo — e o que foi fatal para ela — entre o nazismo e o stalinismo. Spielrein foi morta barbaramente pelos nazistas, junto com suas duas filhas, em 1942, no holocausto das valas — a primeira solução de eliminação de judeus russos, comunistas e ciganos antes dos campos de concentração entrarem em vigor”, conta Cromberg.

Os textos de Spielrein ficaram esquecidos até 1977, quando foi descoberto um baú, no Instituto de psicologia da Universidade de Genebra, que continha seus diários e cartas. “Ela deixou as cartas e os diários nesse baú quando partiu para a União Soviética, onde viveu uma experiência pioneira. Aliás, foi a única vez que a psicanálise esteve ligada ao Estado e ela teve um papel fundamental nisso, ocupando posições-chave de diretora no instituto psicanalítico estatal e nas iniciativas de tentar educar a enorme horda de órfãos da Revolução Russa, da Primeira Guerra Mundial, da Grande Seca e da Gripe Espanhola em um lar experimental, conhecido como o primeiro jardim de infância psicanalítico”, diz.

No entanto, após esse ressurgimento dos textos de Spielrein ocorre outro apagamento. Foi a partir da publicação, em 1977, de Diário de uma secreta simetria, de Aldo Caretenuto, livro que revela o amor de transferência de Spielrein a Jung, consumado em uma relação erótica. “O conteúdo revelado a partir de suas cartas e diários, sobre esse amor transferencial, acabou se sobrepondo à sua obra visionária”, afirma.

As obras completas de Spielrein foram publicadas em alemão e russo e, agora com a edição da Blucher, passam a ser disponibilizadas também em português.

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