Exposição retrata o calor dos corpos e objetos.

Durante os primeiros meses de confinamento da pandemia de Covid-19, entre março e abril de 2020, o fotógrafo francês Antoine d’Agata, um dos mais importantes da atualidade, lançou seu olhar sob a grande ameaça enfrentada pelo mundo naquele período. Fazendo uso de uma câmera térmica acoplada ao celular, ele documentou a dualidade que Paris vivia: a rotina nas ruas vazias e o caos dos hospitais lotados.

Antoine D’Agata
Foto: Antoine D’Agata

O uso do dispositivo térmico feito por Antoine permitiu, surpreendentemente, retratar o calor dos corpos e objetos e os sinais de vida, e não a luz ou a superfície daquilo que está diante do sensor. “Este trabalho é, certamente, dominado pelo uso da tecnologia térmica porque oferece a habilidade de capturar informação de uma forma que a fotografia como a conhecemos não consegue. Não é uma questão de estética, mas de uma técnica em desenvolvimento que me permite gerar uma linguagem visual que apreende a realidade sob uma perspectiva ao mesmo tempo existencial e política”, explica Antoine.

Um ano e meio depois, em novembro de 2021, Antoine veio ao Brasil para dar continuidade a este ensaio fotográfico que gerou mais de 13 mil fotos. Foram registrados momentos da pandemia na Bio-Manguinhos/Fiocruz e no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho. O fotógrafo francês se interessou particularmente em registrar a movimentação nas emergências dos hospitais, a interação entre médicos, motoristas de ambulância, enfermeiros e pacientes. “Tentei apreender essa ambivalência entre solidariedade e contaminação, essa inevitabilidade da morte social e fisiológica, atravessando a linguagem dos sentidos”, conta d’Agata.

As imagens destes dois momentos distintos compõem a exposição “Vírus” que ocupará as Cavalariças do Parque Lage. Aliás, a exposição monográfica será apresentada lado a lado da exposição ‘Bando’, proposta pela artista paulistana Carmela Gross. Juntas, as exposições compõem a primeira fase do programa expositivo ‘Escândalo’.

Aliás, para Ulisses Carrilho, curador da EAV Parque Lage, “a poética de d’Agata poderia ser narrada como consoante à ideia de transgressão da forma, proposta por Georges Bataille, grande pensador do erotismo, outro tema caro ao artista. Segundo leituras interpretativas a partir de Bataille, o autor trabalharia a partir de uma iconografia dilacerante, dilacerada. A transgressão da forma não como recusa, mas como abertura de um corpo a corpo. Nessa iconografia, o corpo humano apresenta-se não apenas como justa medida harmônica, mas um organismo destinado à desfiguração. Neste sentido, tomamos aqui a dilacerante desfiguração do corpo individual operada por D’Agata para especular se esta desindividualização não ousaria propor-se como método de operação: a formação de um corpo coletivo, tanto corpo social, quanto corpo da imagem”.

 Obras desta série já foram expostas na França, México, Japão, China, Itália, Coréia do Sul, Bulgária, Espanha e Ucrânia. Cerca de 1000 fotos chegam ao Brasil no final deste mês e reúnem pela primeira vez os registros feitos no país. As imagens inéditas compõem painéis gigantes instalados na cavalariça do Parque Lage.

Além disso, a mostra também inclui um texto-abecedário, produzido a partir do encontro de Antoine com o jovem escritor da Maré, Math de Araújo. A exposição incluirá também textos de outros artistas de comunidades cariocas, dando espaço para novos pontos de vista sobre a pandemia. E para completar, “Vírus” contará com a exibição do vídeo experimental “A vida nua” criado por Antoine como parte deste projeto.

  Serviço:
Parque Lage. Rua Jardim Botânico, 414 – Jardim Botânico.
Data: De 27 de abril a 19 de junho. Fecha às quartas.
Horário de funcionamento (Mostra): das 9h às 17h.
Entrada franca.
Não é necessário agendamento prévio on-line para visitar a Mostra, apenas se quiser visitar
também o Palacete do Parque Lage.

DEIXE UM COMENTÁRIO

Please enter your comment!
Please enter your name here