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O portador da inquietação: Jayme Periard está gigante em “A Quebra”

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“A Quebra” se faz um espetáculo teatral antes de tudo necessário e maduro.

Dramaturgia de denúncia na aparência, inventário de cicatrizes sociais na essência, o doído “A Quebra”  encontra temperança em seu brado por justiça, contra clérigos que atacam crianças, na sobriedade de seu texto. Em meio ao fel de seu universo temático, o texto de Regiana Antonini (atriz, roteirista, autora do fenômeno dos palcos “Doidas e Santas” e do analgésico “Banheiro Feminino”) alcança um ponto de fervura quase freudiano em que fala é vulcão. Não cura, mas expõe, também não acusa de modo sensacionalista mas, sim, pondera, reflete, clama por juízos. Tudo isso com um componente em especial, na alma da peça, redefine seu simbolismo: Jayme Periard.

A Quebra
Foto: Luciana Mesquita

Dividido em quatro personagens, numa encenação na qual a luz de Paulo César Medeiros vira vedete, com destreza de artista marcial de MMA, Periard se divide entre um cardeal tirânico, um jornalista investigativo, um padre acusado de ser molestador de meninos e uma vítima já adulta. O ator dá vida a um monólogo em que cada quadrante exige dele um sentimento – e de nós, público, também, numa comunhão 3D entre placo e plateia.

Trabalhando entre a subserviência ao Poder, a indignação, a ilusão mefistofélica e o clamor por ajuda, Jayme Periard leva aos palcos um trabalho árduo, mas a exigência que o ator se impôs, na comemoração de seus 40 anos de carreira, é sustentada por um par de elementos.

De um lado, existe o saber adquirido ao longo de uma vida sob a luz dos estúdios, vetorizada por um talento que as emissoras deveriam valorizar mais, vide a habilidade singular de Periard em escavar sentidos nas palavras que masca. Do outro lado, vem aquilo que o hoje centenário sociólogo francês Edgar Morin (no livro “As Estrelas”) chamou de Teoria da Persona. Aliás, segundo ele, o audiovisual não lida com atrizes e atores, como faz a arte de Sófocles; lida com astros, ou seja, com a matéria mítica da apresentação, com a mistura do corpo de um intérprete e valores por ele representados.

Quem olha John Wayne pensa no Velho Oeste. Quem olha Greta Garbo pensa na enigmática representação dos encantos femininos. Quem olha Toshiro Mifune vislumbra a impavidez de um guerreiro. Quem olha Viola Davis pensa na luta antirracista e sua icônica peleja contra a intolerância racial. Quem olha Jayme Periard vê as artes cênicas de outrora. Mas foi na imagem em movimento, na televisão, que ele virou referência.

Ao acompanhar sua carreira, desde os anos 80, lembra dele com o Tito de “A Gata Comeu” (1985) ou como João Antônio em “Brega & Chique” (1987), num posto de devir heroico. Mas quem viu “O Portador” (1991), ousada minissérie de Azis Bajur e José Antônio de Souza, tem a exata dimensão do ator gigante que ele pode ser, e é. Cabe o mesmo elogio a seu desempenho no curta On Guard: Estado de Alerta (2017), de André Mattos, sobre uma subjetividade alquebrada pela angústia. Diante de sua carreira, Regiana sacou o quão elástico o ferramental cênico de Periard pode ser. A luz de Paulo César saca isso também, a cada apresentação de “A Quebra”, a persona em questão, é a do homem brasileiro gente como a gente que se vira nos 30, tropeça nas pedras do caminho e se refaz.

Em seus escritos, Morin diz: “A compreensão não desculpa nem acusa: pede que se evite a condenação peremptória, irremediável, como se nós mesmos nunca tivéssemos conhecido a fraqueza nem cometido erros. Se soubermos compreender antes de condenar, estaremos no caminho da humanização das relações humanas”. É sobre isso que fala “A Quebra”: Condenar é a consequência de entender, de tirar a prova dos noves.

Regiana confia a Periard um poliedro de almas que espelham um escândalo clerical decorrente de denúncias de pedofilia numa paróquia. Quatro lados do caso ganham fala numa estrutura dramatúrgica de dialética na qual a síntese é viva, é a Vida. Tudo é relativo, menos o silêncio. Esse é um mal absoluto, cafetinado pelos sensacionalistas e purgado por quem sofre.

Além disso, o que Regiana promove é, certamente, a menos a expiação de culpa e mais o exorcismo do inaudito. Nesse processo a voz de Jayme Periard é o canto de um rouxinol ferido, mas ainda ativo. “A Quebra” se faz um espetáculo teatral antes de tudo necessário – e maduro – não só por seu enfrentamento de úlceras morais, mas por dar a seu protagonista o aplauso que ele merece por tudo o que nos deu na televisão. E há de dar.

Confira o serviço completo da peça!

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