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Os Sonhos de Pepe apresenta os ideais do ex-presidente uruguaio Pepe Mujica

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A América do Sul é um continente com uma história colonial e raizes que misturam a cultura dos povos nativos e o suco do que poderia existir de pior dos europeus. Esta saga, oriunda da época da “descoberta” por parte de espanhóis e portugueses, remonta a um tempo quase imemorial. Apesar dos propósitos coloniais serem basicamente os mesmos, segundo o sociólogo e historiador brasileiro Sérgio Buarque de Hollanda, esta é uma história de iguais que são diferentes. Tanto Espanha quanto Portugal investiram em uma colonização de exploração, porém, com  pequenas e cruciais diferenças. Os primeiros, ao contrário dos segundos, investiram também em educação e esta diferença não tinha como passar batida. Em um vasto latifúndio de ditadores, caudilhos e líderes inescrupulosos, a exceção haveria de brotar na porção espanhola da América. “Os Sonhos de Pepe”, documentário dirigido pelo cineasta uruguaio Pablo Trobo, versa sobre o homem que se tornaria esta exceção. 

O personagem título é José Alberto Mujica Cordano, ou, simplesmente, Pepe Muijca, que em 1º de março de 2010 foi empossado como o 40° presidente da República Oriental do Uruguai. A história deste rico personagem já foi, anteriormente, contada por outro ângulo, no excelente longa-metragem “Uma Noite de 12 Anos”, de também diretor uruguaio Álvaro Brechner. Ex-militante e guerrilheiro marxista, Pepe pegou em armas para combater a ditadura civil-militar de seu país, que se estendeu por mais de um década, de 1973 a 1985, os tais doze anos. Capturado, ele foi encarcerado na prisão de Punta Carretas, junto com outros companheiros, por um tempo, ou melhor, por um hiato que, apesar de doloroso, ajudou a formar o político que um dia chegaria ao comando da sua nação. Sem poder ler, seu maior passatempo, Pepe precisou se ater a outras coisas e aprendeu a ouvir o que dizem as formigas. 

Em “Os Sonhos de Pepe, Trobo parte da posse presidencial do protagonista. Em vez de recorrer a imagens de arquivo, o realizador utiliza o take do que imagino ser a câmara federal uruguaia vazia, e aplica, por cima, como uma voz over, o áudio do momento em que o novo governante é empossado. Escutamos o juramento solene e, enfim, a proclamação. Este recurso será, dali em diante, usado quase o tempo todo. A película não tem nenhum depoimento de qualquer outro personagem histórico que tenha convivido com Mujica. Quando não escutamos a narração em off do político é porque o documentarista optou pelo uso de gravações deste discursando na ONU ou em alguma coletiva pelo mundo afora. Há um único momento em que ouvimos a voz de Lucía Topolansky, senadora e primeira-dama do Uruguai, também como voz over. Fora isso, só vozes aleatórias em cenas que contam com a presença de interlocutores. 

Quando não visualizamos Pepe em cena, se sucede uma torrente de imagens bonitas e outras nem tanto. O que há de mais belo em termos de natureza contrastando com takes de subdesenvolvimento como a enfatizar que  no mundo estas duas vertentes convivem diariamente. Só que Pepe segue o seu tour digno de um popstar da luta contra as desigualdades sociais: Nova Iorque, Tóquio, Rio de Janeiro, Hiroshima, Berlim, Londres e Damasco são lugares que ele visita pedindo a seus ouvintes, que vão de cidadãos comuns a líderes do naipe de Obama e Lula, ajuda para fazer do mundo um lugar mais justo, onde uma mulher africana não tenha que caminhar cinco quilômetros para se servir de água potável enquanto velhos brancos e ricos gastam dinheiro fazendo turismo no espaço sideral. Tudo ao som, principalmente nas horas mais graves, de uma trilha sonora composta de músicas clássicas em que “O Guarani”, do maestro brasileiro Heitor Villa-Lobos, se destaca de forma quase onipresente. 

O documentário “Os Sonhos de Pepe” faz questão de frisar, mesmo que de modo implícito, sem uma definição feita através de palavras, que Mujica é um personagem excêntrico entre seus pares globais. Uma vez empossado, ele passou a doar 90% do seu salário para a caridade, recusou o palácio presidencial e continuou morando em sua chácara, nos arredores de Montevidéu. Paralelamente ao seu ofício como governante de três milhões de uruguaios, jamais deixou de cultivar suas flores e de vendê-las como sempre fez. Não satisfeito, dispensou os carros oficiais, a escolta e continuou a se locomover com o seu fusca azul turquesa ano 87. Jogo de cena? Não, ele é assim mesmo, tanto é que ao reafirmar sua condição de republicano convicto, acaba confessando não entender o porquê de presidentes e primeiros-ministros serem tratados como reis, com direito a tapete vermelho e tudo mais. 

Escorado no magnetismo e no charme do personagem retratado, Os Sonhos de Pepe, de Pablo Trobo, cativa por algum tempo a audiência porque é quase impossível não admirar aquele sujeito que, salvo provas contrárias, jamais se deixou se seduzir pelas benesses do poder. Não importa se você é de esquerda ou de direita, é preciso reconhecer que estamos diante de alguém singular, que procura viver de acordo com os seus pensamentos e não a pensar de acordo com a forma que vive. Todavia, o problema ao longo de 86 minutos de projeção é a maneira escolhida pelo realizador para captar todo este magnetismo e charme. A opção por uma fórmula que prioriza o uso da voz over sobre imagens faz com que, lá pelas tantas, tenhamos a forte sensação de estarmos escutando um audiobook, tornando, assim, o terço final do documentário um tanto quanto cansativo demais. 

Desliguem os celulares e boa diversão. 

Bruno Giacobbo
Bruno Giacobbo
Um dos últimos românticos, vivo à procura de um lugar chamado Notting Hill, mas começo a desconfiar que ele só existe mesmo nos filmes e na imaginação dos grandes roteiristas. Acredito que o cinema brasileiro é o melhor do mundo e defendo que a Boca do Lixo foi a nossa Nova Hollywood. Apesar das agruras da vida, sou feliz como um italiano quando sabe que terá amor e vinho.

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