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A Noiva!: Maggie Gyllenhaal faz releitura de a noiva de Frankenstein

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A Noiva!, dirigido e escrito por Maggie Gyllenhaal, parte de uma premissa conhecida: a mulher que, após ser morta, é reanimada por uma cientista para se tornar a companheira do Frankenstein. Mas não se engane — o filme não cabe em rótulo algum. É terror, claro — como não seria, vindo do romance de Mary Shelley? —, mas também é filme de gangster, tributo à Hollywood dos anos 30, vaudeville, boemia e feminismo escancarado. E nada soa excessivo. O que impressiona é como Gyllenhaal costura essas camadas sem que apareça a linha — ao contrário do monstro.

O Frankenstein de Christian Bale é fã declarado de Ronnie Reed — personagem de Jake Gyllenhaal que parece saído de um filme de James Cagney — e foge de cidade em cidade com a Noiva, vivida por Jessie Buckley. Em cada parada, cinemas. Em cada cinema, os mesmos filmes de seu ídolo. O roteiro de A Noiva! respira aquela Era: Anjos de Cara SujaHeróis Esquecidos, rajadas de metralhadora que evocam Bonnie e Clyde, tudo com o ritmo e a malícia do vaudeville. Estamos na década de 30, na Chicago da Lei Seca, na Nova York dos neons. E, ainda assim, nada soa como colcha de retalhos.

A fotografia de Lawrence Sher é o que faz A Noiva! cintilar. As cenas noturnas são menos escuridão e mais espetáculo: como se a Times Square inteira fosse palco da Broadway. A luz dos cabarés rasga o breu, o contraste entre glamour e crime vibra. Becos sombrios, letreiros luminosos, poeira dançando na projeção de filmes antigos — é um convite para não piscar. Sher não ilumina apenas; ele constrói atmosfera. E Gyllenhaal sabe exatamente quando tensionar e quando liberar o fôlego.

Com esse pano de fundo, cabe a Jessie Buckley dominar o filme. Depois da indicação ao Oscar por Hamnet, onde pode ser vista em um papel mais contido, agora ela assumi um papel que é pura explosão. Na primeira cena, ao provocar o capo mafioso Vito Lupino, já incendeia a tela: é holofote de 1000 W. Reanimada, torna-se ainda maior — uma mulher que não pede licença para existir. A mancha preta ao lado da boca, marca da reanimação, vira símbolo. Mulheres passam a reproduzi-la como quem reivindica território. O feminismo aqui não discursa; age. Ela não é vítima. É ícone. E Buckley sustenta isso com uma energia inédita na própria carreira. Para mim, supera Hamnet. É seu melhor trabalho.

No núcleo policial, Peter Sarsgaard cumpre bem o papel do detetive Jake Wiles, mas quem realmente cresce é Penélope Cruz, como a afiada Myrna Mallow. O que começa como secretária logo se revela mente investigativa mais ágil que a do chefe. Ela percebe antes, entende antes, age antes. No desfecho, é dela o movimento final. A Noiva! não anuncia a força feminina, demonstra.

Com 2h06, o filme passa sem arrastar. Não há gordura. E ainda há um gesto metalinguístico elegante: logo no início, Jessie Buckley surge como Mary Shelley — já morta — afirmando que a história que queria contar era outra. A referência ao longa de 1935 é clara, mas aqui ganha novo peso. É como se o fantasma da autora decidisse reescrever o próprio mito.

Por fim, A Noiva! é menos sobre monstros e mais sobre mulheres que se recusam a se calar — e sobre quem tenta silenciá-las com balas, grades ou rótulos. Maggie Gyllenhaal não entrega um remake; entrega uma tomada de posição. E Jessie Buckley, com sua voz rouca e olhar cortante, é o coração que pulsa no centro desse espetáculo febril.

Desliguem os celulares e excepcional diversão.

Bruno Giacobbo
Bruno Giacobbo
Um dos últimos românticos, vivo à procura de um lugar chamado Notting Hill, mas começo a desconfiar que ele só existe mesmo nos filmes e na imaginação dos grandes roteiristas. Acredito que o cinema brasileiro é o melhor do mundo e defendo que a Boca do Lixo foi a nossa Nova Hollywood. Apesar das agruras da vida, sou feliz como um italiano quando sabe que terá amor e vinho.

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