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‘A Mulher-Estátua’ faz alusões em sua geopolítica da falta de alento

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Dizer que “A Mulher-Estátua” periga ser o espetáculo de maior precisão, na cena carioca, em 2026 (até agora), seria ratificar esteticamente um fato: ela é de um rigor espartano. Entretanto, a ideia de “ser preciso” carrega um racionalismo matemático que parece incoerente com toda a incontinência de Thiago Picchi, em sua escrita, em sua encenação. 

Talvez apelar para “alumbramento” seja mais adequado ao procedimento de gira entre implosão e explosão de duas almas encarnadas numa relação (quase especular) de olhar num só corpo, o de Adriana Seiffert, que ziguezagueia no palco a traduzir a busca por alento. O alento que a gente parece ter perdido na relação social.       

Abrem muitas janelas de referência, em outras artes, na narrativa encenada por Picchi tendo o que parece ser um rabo de baleia ao fundo, ao lado de um pequeno pedestal – componentes da trovejante direção de arte de Kelly Siqueira. Seus trovões geram pertença: de um lado, um mamífero que virou resto, sugerindo finitude, como um fim que nos abraça; do outro, uma estrutura que aterra Seiffert a um chão de feira onde vendedores escambam ilusões.    

De cara, na descrição do que seria a Feira da Praça XIV (mas caberia a muitas outras), brota a primeira evocação. Seiffert vive uma transeunte que vagueia entre barraquinhas de cacarecos usados. A forma como detalha cada quinquilharia lembra o Charles Baudelaire, de “Os Olhos dos Pobres”, ao sugerir que o olhar da personagem “estavam fascinados demais para expressar algo além de uma alegria estúpida e profunda”. 

Esse poema desnuda indiferença, ao narrar o desgosto de um sujeito ao notar a falta de empatia da companheira por uma família de pedintes. Pois a transeunte Seiffert parece se chocar de ninguém dar bola para a mulher-estátua que se apresenta, inerte, a 20 metros do fervo da feirinha. A invisibilidade social se faz notar – e debater – em cena, no que os olhos das duas se encontram. 

A fascinação baudelairiana da transeunte se expressa numa frase: “Houve um tempo em que nem tudo era feito na China”. É sua forma de dizer que a xepa onde se encontra parece mais gourmet do que as bugigangas das lojinhas de R$ 1,99. De certa forma, ao dizer essa fala, está tentando expressar à mulher-estátua que esta não é uma mercadoria. É gente. Se é gente, não é pra ser olhada – com o desejo do consumo -, é pra ser enxergada… e ouvida. 

Evocação dois: um belíssimo filme, de apenas sete minutos, “Goldman v Silverman”, lançado pelos irmãos Josh e Benny Safdie, em 2020, com Adam Sandler. É um embate entre artistas de rua, o tal Homem de Ouro (Sandler) contra o Homem de Prata (Benny), duas estátuas humanas que brigam por um pedaço de rua só para si. Ali foi um dos raros exercícios da arte de massas no qual a condição de performers – como a mulher-estátua vivida por Seiffert – foi discutida. 

O que há de singular na dramaturgia de Picchi, decalcada das páginas de “Neste Livro Cabe Uma Baleia”, publicado por ele mesmo, em 2015, pela 7Letras, é o fato de a mulher-estátua não servir apenas como um contingente de inquietação existencial para a transeunte. Ela tem lugar para falar. E fala um bocado, numa composição (ainda) mais visceral de Seiffert. De cara, ficamos sabendo que ela gosta de uma pinga. E por aí vamos…         

Inchada de uma recordação daquele tipo que pesa feito bigorna na consciência, ela relembra o encontro com um cadáver na praia. Sua família estava torrando na areia quando viu o morto. Tal vivência redesenha sua percepção de apatia e de falta de solidariedade, dada a reação dos banhistas ao corpo. Outra evocação brota daí: “A Artista do Corpo”, romance de Don DeLillo, editado em 2001, no qual uma escultora viúva resgata o corpo inerte de um homem, caído na entrada de sua casa, e transforma-o num avatar do marido morto. 

A mulher-estátua de Picchi era jovem demais para fazer algo assim do cadáver, mas não tirou a lembrança dele de si. Fez dela a “matéria de morte” (a pulsão, o tânatos) para um ato que, esse sim, performou com as próprias mãos: dinamitar um corpo de baleia, na Praia do Boqueirão, onde seu pretérito imperfeito se desenrolou. 

O que a dinamite há de deflagrar, o Rota Cult não pode contar aqui. Vai ao Sérgio Porto para saber. Lá, a plateia vai descobrir o que levou a mulher-estátua a arrumar um cantinho para si na multidão e homenagear todos os homens e todas as mulheres que nunca realizaram um grande feito para serem homenageados. A baleia vive nela.

A baleia, num momento crucial da encenação, sob a iluminação hitchcockiana de Paulo César Medeiros e a sincope que a trilha sonora (impecável) de Gabriel Ares causa na gente, vira uma metáfora geográfica. Poderia ser a Perimetral que cruza a história das feiras de antiguidades no Rio. A baleia é a geopolítica da invisibilidade, contra a qual o teatro opera.

Nesse haicai de Picchi, Maureen Miranda veste Seiffert num figurino aparentemente simples, mas que parece capaz de cobrir e de desnudar a Terra inteira, no paradoxo do abandono de uma metrópole – como a polis carioca – onde as baleias são blocos de concreto, onde estátuas sonham. O que elas sonham? Essa peça linda é a resposta.

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