- Publicidade -

Mãe e Filho: Saeed Roustaee relembra a força do cinema iraniano

Publicado em:

O cinema iraniano explodiu para o mundo nos anos 1990, com a ampliação em âmbito mundial das vozes de Abbas Kiarostami, Mohsen Makhmalbaf, o surgimento de Jafar Panahi e Majid Majidi, e a confirmação de cinematografia em consonância, de maneira estranhamente díspar, com o resto do mundo. Era o Irã revelando o Irã, e mostrando uma sensibilidade que faria comunicação com cinemas que nem de longe seriam capazes de alcançá-lo. Ali nasceu o “cinema iraniano” enquanto expressão artística, que foi alvo de risadaria aos quatro ventos enquanto fortalecia uma marca autoral de inegável força. Quase 40 anos depois dessa explosão, o Irã ganha a Palma de Ouro pela segunda vez e demonstra uma evolução a quatro mãos: se existe o Panahi de Foi Apenas um Acidente, também existe uma nova geração representada por Saeed Roustaee, de Mãe e Filho.

O cinema enquanto ato político tão característico do país está em todas as suas vertentes, seja na sensível visão infanto-juvenil acerca do mundo exterior, no ar político que exala de cineastas consagrados ou na pequena revolução que as relações humanas podem revelar, acerca inclusive dos papéis de gênero sociais. Roustaee, aqui, se mostra um exímio difusor de imagens iconográficas em sua  representatividade estética, estabelecendo um padrão complexo de alcançar aos seus pares, tenham eles sua nacionalidade ou não. Nenhuma imagem do filme passa na tela sem um propósito definido, revelando um microcosmos onde a força política está em desafiar as alas principais e correr, ao mesmo tempo, pela margem e em sua potência central. 

Mahnaz é uma viúva de 40 anos com dois filhos a tiracolo. Em qualquer lugar do planeta, Mahnaz está condenada ao esquecimento; no Irã, ela desapareceu, e no lugar dela surgiu uma mulher sem qualquer parâmetro de escolha. E para voltar a ser escolhida, Mahnaz precisa deliberadamente conclamar esse desaparecimento de maneira efetiva. Mãe e Filho cristaliza os sonhos e obrigações de uma mulher que se recusa a sair de cena, mesmo quando a tragédia se abate. Embora a fina camada de pressão psicológica se apresente, Mahnaz precisará sobreviver a essa tragédia sem perder o fio da meada da própria vida. Roustaee pinta esse quadro de desespero desmedido com a apresentação de um personagem que está em cena e ao mesmo tempo não está; quando finalmente sai, ele lega à protagonista uma espécie de solução gradativa e apropriada, mesmo que tal destino seja formatado pelo horror. 

Aliyar é filmado constantemente no contrafluxo. Ele não é mais um adolescente como os outros, ele rasga a narrativa escalando prédios, perdendo aulas para unir-se a apostadores da fábrica ao lado, ele está no caminho oposto aos demais, e em determinado momento ganha a seguinte frase da tia: “…e por isso ele seduz a todos”. Ele é, mesmo sem perceber, o reflexo de sua mãe, ainda que se enxergue mais em um pai inexistente; busca a liberdade de quem deseja a vida, e acaba na rota do trágico. Existe uma irritação latente por trás da criação desse personagem, porque adolescentes por si só são questionadores, inquietos, irritantes e muitas vezes subversivos, e estamos diante de um desses, literalmente indomável em sua beleza. Palmas para Sinan Mohebi, mas não só para ele. 

Mãe e Filho, como o grande filme que é, oferece ao espectador não um, dois, três, quatro ou cinco personagens multifacetados; todos o são. Da mãe que deseja o melhor para si, para sua família, mas também precisa ser mulher, e encontra as barreiras que apartam tais lugares; da tia que vive para auxiliar, mas que se vê encurralada por um destino de conflito; da avó que provém mais do que amor, mas que precisa colocar um freio na própria dor para também amparar quem sofre ainda mais. E, no olhar de quem enxerga algum machismo por trás do encaminhamento das ações do filme, vale observar os dois personagens masculinos para além da vilania, mas igualmente oriundos dela. 

Tudo isso não é apenas trabalho do roteirista Roustaee, mas do autor Roustaee: como já dito, todas as cenas de Mãe e Filho, por mais banais que pareçam, têm laço com algo na narrativa, e são decupadas com perfeição. A primeira cena onde os irmãos descem o prédio, Aliyar pela escada e Neda de elevador, que é relida no futuro, com os olhos da solidão. O arco dramático que conecta Mahnaz e Aliyar, transformando mãe e filho em músicos de um mesmo ritmo, é ao mesmo tempo sutil e feroz. Nada escapa à autoralidade do que está sendo contado, seja através da imagem ou do discurso, e todas as curvas levam a mesma espinha dorsal: a dor da perda muitas vezes só cessa após o ato mais irracional, e que a vida é uma fonte de imposição externa. Tudo muda o indivíduo, mas o indivíduo também muda seu entorno em constância, muitas vezes sem perceber sua participação. 

No desfecho de Mãe e Filho, entendo verdadeiramente o desconforto. Mulheres se unem durante toda uma produção, para se verem à mercê das decisões masculinas e o direito único deles. Isso está no primeiro plano. Mas Roustaee se mostra genial pela última vez, e nos faz reconfigurar toda sua estrutura através literalmente da última imagem, a configuração do seu plano e o que aconteceu nos últimos 10 minutos. Em determinado momento, as personagens femininas se encontram e dizem uma pra outra: “sempre fomos nós, eu, você, mamãe, Aliyar e Neda, juntos”, e assim será mais uma vez. Homens servirão como fantasmas da própria história, como servidores sujos presos em sua coadjuvância em uma eterna espreita; vem aí uma nova geração. Repleta de uma nova educação feminina para, mais uma vez, tentar a mudança e renascer, para um mundo menos poluído. Belíssimo. 

Mais Notícias

Comentários

DEIXE UM COMENTÁRIO

Please enter your comment!
Please enter your name here

Nossas Redes

2,459FansGostar
216SeguidoresSeguir
125InscritosInscrever
4.310 Seguidores
Seguir
- Publicidade -