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Backrooms: Um Não-Lugar alimenta o horror do presente explorando traumas e violências emocionais

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Em um mês especial para os fãs de cinema de gênero, o circuito cinematográfico guardou não apenas excelentes opções para o espectador, como o fez através dos menos óbvios títulos, talvez do ano. Em comum narrativamente, nenhum deles tem consonância de histórias, mas algo os reúne além de um possível encontro de sua formação: a sensação constante de estar em um sonho ruim, angustiante. Se isso não é um elogio suficiente para atribuir a um filme de terror, resta acrescentar também que o incômodo generalizado é uma mola propulsora de, entre outros, Backrooms: Um Não-Lugar, estreia na direção de longas de Kane Parsons. De uma maneira sutil e verdadeira, Parsons consegue projetar os seus próprios pesadelos (talvez) em planos regados a uma estranheza contínua e ininterrupta. 

Backrooms

Como, em matéria jornalística, Backrooms: Um Não-Lugar acabou de ser descoberto como o gênero de filme preferido do público brasileiro na hora de escolher algo para assistir, é salutar que algo como Backrooms: Um Não-Lugar dê as caras, vez por outra. Não apenas pela originalidade do que é proposto, das suas saídas gráficas, mas igualmente por uma aproximação de algo que não é abordado por essa saída. A atmosfera aqui é herdada da série de vídeos que Parsons produziu para o youtube com a mesma forte carga de estranheza que tais imagens se estabelecem, mas também seu entendimento da obra enquanto material cinematográfico passa por uma descoberta narrativa. O insólito não é apenas uma maneira de carregar a ambiência correta para o projeto, mas exatamente a nova camada que é adquirida ali a partir do olhar na direção de algo menos entrincheirado pelas imagens. 

Saindo de um conceito mais direto, e talvez até tradicional do gênero, seu autor revela uma faceta psicológica que é redefinida (e até amparada) pela presença de uma profissional da área como personagem. Porque Backrooms se espelha em uma espécie de caixa de Pandora fílmica, cujas descobertas são feitas de maneira gradual por quem assisti. O que é acessado pelos personagens, em diferentes estágios de entrega e revelação, é um outro corpo estranho do que o espectador devaneia; o inferno que Parsons apresenta é um mais perigoso do que sua leitura real, porque ele é desenvolvido por cada um de nós. Dessa maneira, o inferno não são os outros, mas cada um de nós e nossas cabeças perturbadas, que promovem imagens cujo apavoramento é apresentado pelo vazio, pela ausência, pelo eco de si mesmo. 

Dessa maneira subjetiva, Backrooms não facilita a vida do espectador que espera que o cinema de gênero ofereça catarse gratuita e vazia. Assim como Obsessão Hokum, dois outros ótimos filmes em cartaz – muito mais diretos – a experiência do espectador, prévia e dentro da sala em particular, induzem às interpretações. Ainda que isso seja um chamamento para qualquer filme, o que acontece na narrativa de Parsons é apenas organizar uma base para que sua dupla de protagonistas (os indicados ao Oscar Renate Reinsve, por Valor Sentimental, e Chiwetel Ejiofor, por 12 Anos de Escravidão) se permitam uma linha de raciocínio; mínima. Mas nas entrelinhas da informação, o filme deixa escapar que nossas próprias experiências definem não apenas quem somos, mas a maneira como encaramos a solução dos problemas, e a forma como eles assombrarão nossa vida, além do que as fugas de tais medos representam para o futuro, a longo ou curto prazo. 

Um labirinto de salas vazias é descoberto. Onde eles estão? São de ordem física ou metafísica? Materialmente, ficam conectados a uma loja de móveis que não vende, mas através de um portal desconhecido é possível encontrá-lo e perder-se nele. Esses quartos dos fundos, como diz o título original, são inacessíveis ao olho nu – porque precisam ser descobertos pela reflexão, pelo que as dores pregressas fizeram questão de esconder. Backrooms se alimenta do que os seus personagens viveram no passado para alimentar o horror do presente, os traumas, as violências emocionais, a sensação de derrota que nos leva ao esconderijo da alma. Estarão nesse lugar abandonado as motivações para que sejamos vítimas do horror, todos os dias, porque a falência literal ou emocional estão vívidas para esse encontro final, entre o que nos tornamos e o que nos deixamos ser. 

Ejiofor e Reinsve, grandes atores que são, não exatamente tem aqui um veículo, porque podemos dizer que Backrooms: Um Não-Lugar é, certamente, um acordo tácito entre seu realizador e o espectador. Ele fornece a energia e o estranhamento necessários para que uma hipnose se inicie, e do lado de fora da tela percorremos o labirinto da memória torcendo para conseguir escapar do que passamos tanto tempo tentando esquecer. Aliás, Nenhum ‘jump scare’ é capaz de contribuir para a perturbação gradual da experiência coletiva do desconhecido que está abrigado nas dores de um passado que parecia enterrado. Com a construção da atmosfera certeira, que une cenários vazios com as possibilidades dele ser habitado (e pelo quê), o espectador que se deixar levar encontrará as consequências do que Charlie Kaufmann faria numa madrugada de horror. Investigar a si mesmo é a porta de entrada para revelações que não gostaríamos de ter, e ainda que não aceitemos a ideia de montanha-russa de Kane Parsons, a beleza de sua estrutura é inebriante demais para ignorar. 

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