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E Seus Filhos Depois Deles faz mosaico emocional

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Todas as histórias já foram contadas pelo Cinema, essa máxima é ouvida de tempos em tempos, geralmente quando queremos atribuir nossa má vontade em relação a um título novo, ou fazer uma reflexão sobre algo que transcende a narrativa tradicional por meios já conhecidos. E Seus Filhos Depois Deles, obra premiada no Festival de Veneza e que estreia nos cinemas essa semana, durante uma fatia de sua primeira parte, nos parece apresentar algum tipo de reciclagem de material, até que ainda neste primeiro tomo um elemento trágico é introduzido, e o filme deságua, a partir daí, para conceitos menos óbvios. O que se monta é uma obra que depende muito mais da sensibilidade de quem filma e adapta o romance do qual se baseia; ao espectador cabe se deixar levar por esse caminho que sempre encontra uma curva inesperada. 

Os gêmeos Ludovic e Zoran Boukherma lançam seu quarto longa-metragem, que se distancia da ordem do fantástico que seus títulos anteriores apresentavam. Aqui, o registro ambiciona um típico naturalismo proletário francês, onde, o próprio batismo da obra já garante, se reafirma a injusta lógica da herança emocional que os filhos herdam de pais que, muitas vezes, não foram bons nem para si mesmos. Então o que parecia ser um desses filmes de rito de passagem da adolescência para a idade adulta, revela mais camadas de seu entorno, criando um mosaico de complexidade moderada, mas cuja carga emocional é garantida. Na verdade, caso exista algo de complexo no que está sendo contado, parte de olhares que tendem a condicionar a lógica fílmica a buscar uma resposta exata aos conflitos, quando muitas vezes a vida se abre de maneira menos esperada. 

Paralelo a esse olhar sobre alguns moldes de juventude na mesma zona do sul da França, temos uma fina camada de observação sobre os pais desses jovens que nos mostram de onde essas personalidades foram moldadas, com ou sem querer. São criaturas em extratos sociais distintos, entre figuras abastadas até outros se aproximando da marginalidade, além da tradicional casta estrangeira em produções do tipo. Em comum, existe a promessa de encontro social que nunca encontra concretização por outro meio que não o da violência, estrutural ou física. E Seus Filhos Depois Deles mergulha fundo nessas relações para entendermos a origem desse passado que machuca ainda hoje, porque são reproduções históricas cuja ancestralidade serve mais para ferir que educar – e gradativamente reproduzir esses círculos adiante. 

O contexto geral ainda é corrompido por uma outra época, estamos falando de 30 anos atrás. E Seus Filhos Depois Deles se passa entre os anos de 1992 e 1998, acompanhando esse grupo de adolescentes em diferentes verões – sempre de 2 em 2 anos – descobrindo mais do que suas amizades e seus romances. A verdade é que talvez estejamos observando o desabrochar do caráter desse grupo, com o centro representado por Anthony, Steph e Hacine; ainda que o protagonista seja o primeiro, cada um deles apresenta uma centralidade temática e representativa. Um jovem rapaz pobre, uma jovem moça rica e outro jovem, nesse caso imigrante; de criações distintas, os três se encontram no mesmo período de vida, porém o fato dessas perspectivas sociais serem tão diferentes, moverão suas ações e a forma como eles lidarão com o que os aflige. Assim como também o olhar do espectador se fará enviesado para cada um dos lados, e os autores sabem disso. 

Anthony é a espinha dorsal de uma narrativa trifurcada. Vivido por Paul Kircher (Prêmio Marcello Mastroianni em Veneza, equivalente a um troféu de revelação), o rapaz acompanha o casamento desfeito de seus pais, deteriorado por camadas diversas de horror, que vão do alcoolismo ao machismo. O personagem, afetado por um sem número de perdas e pequenas tragédias mais ou menos cotidianas, se vê impelido a responder ao que lhe é feito com doses correspondentes de erros que desencadeiam novos horrores, e outros, e mais uns. Todo o roteiro é desencadeado pelo roubo de uma canoa logo na primeira cena; por conta disso, Anthony conhece Steph, que o influencia a ir a uma festa do qual ele nem sabia, para isso ele toma a moto do pai para si, que é roubada, o metendo na primeira das muitas fileiras de acontecimentos sem volta. Detalhe: toda a descrição da frase anterior acontece nos primeiros 20 minutos da produção, e desemboca em situações que moldam – para o bem e para o mal – o futuro e a personalidade de cada um desses três tipos centrais. 

Talvez a gravidade de algumas ações acabe não sendo tratada com o devido olhar mais cuidadoso do roteiro. Em um retorno de Hacine à cidade, por exemplo, ele toma uma atitude violenta e decreta um novo momento em sua vida, e esse passo não é aprofundado pelo roteiro. Isso não desmonta E Seus Filhos Depois Deles, mas mostra como a carpintaria da narrativa beneficia mais o personagem de Kircher, cujo foco é absoluto. Um pecado que não arranha essa obra de ambição dúbia; tanto quer resgatar um recorte de um tempo que gestou o que vivemos hoje, ao que passo que também almeja traçar linhas simples sobre a formação do ser humano e as penalidades que infligimos.

Com uma trilha sonora impressionante (e que vai de ‘Nothing Else Matters’, do Metallica, a ‘Under the Bridge’, do Red Hot Chilli Peppers, passando por ‘Dream On’, do Aerosmith, entre muitos outros hits), o filme nos carrega por essa viagem cujo destino é acompanhar a formação desse novo homem, entre seus muitos erros, e seu entorno igualmente alquebrado. 

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