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O Gênio do Crime, adaptação da obra literária de João Carlos Marinho, chega aos cinemas

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Em uma semana com uma quantidade absurda de estreias nacionais, onde grande parte deles é acima da média (O Rei da InternetEu Não Te Ouço e o melhor filme brasileiro do ano até agora, Mambembe), uma produção infanto-juvenil mostra como seria bom viver em uma indústria séria e reconhecida. O Gênio do Crime, dirigido por Lipe Binder, é uma peça rara dentro de uma engrenagem pesada de destruição de mão de obra especializada; na indústria, é priorizado o resultado a qualquer custo. A intenção aqui é conectar o espectador a um universo criado há mais de 55 anos, sem subjugar a análise desse público final. Ou seja, não é porque se trata de uma produção pensada no público jovem, que o verniz não precisa estar lá. Vindo de um profissional acostumado a rapidez de entrega de conteúdo da televisão, o resultado é assustador – no melhor sentido possível. 

Binder está por trás de novelas de qualidade indiscutível (CaboclaSinhá MoçaA Lua me Disse), alguma premiadas internacionalmente (Verdades SecretasArcanjo RenegadoImpério) e essa é apenas a estreia de um “jovem” cineasta que parece pronto para ganhar o mundo. Se com O Gênio do Crime, Binder já surpreende com um filme de linguagem cinematográfica clara, esteticamente inventivo e com uma narrativa desenvolvida de forma deliciosa, desejamos conhecer seu futuro. Com um olhar para o presente, o filme é a adaptação do clássico infanto-juvenil escrito por João Carlos Marinho em 1969, cujos roteiristas Ana Reber e Marcos Ferraz trazem para os dias de hoje com absoluta destreza. Na tela, vemos a agilidade do hoje com o sabor da nostalgia de um tempo onde as crianças viviam sem os perigos de uma grande cidade como São Paulo. 

Apesar desse suposto anacronismo – quantas crianças hoje podem se sentir seguras andando pelo centro da maior cidade do país e dormindo sozinhas em um ferro velho? – O Gênio do Crime não soa exagerado, ou deslocado no tempo. A sensação é de uma espécie de Menino Maluquinho para a geração 2020, onde a inocência de outrora, no tratamento entre os personagens e na textura de suas ações, foi substituída por uma esperteza condizente com os tempos atuais, sem incutir na imagem alguma subversão ordinária. Em prol da obra, temos ritmo de filme de aventura, uma tensão providencial e um bom humor inteligente, que vai do desenho dos personagens até a acertada escalação de um elenco nada óbvio. 

Além disso, O Gênio do Crime tem uma delicadeza pouco comum para um filme que se pretende diversão em larga escala, que não desequilibra o resultado final de um filme que merece encontrar reverberação. Junto a outro título como O Último Episódio, dirigido por Maurílio Martins, Binder mostra que o cinema industrial tem salvação estética. Não é só a narrativa que funciona, unindo um quarteto de pré -adolescentes na busca por um falsificador de figurinhas do álbum da Copa 2026 (sim, o filme é urgente nesse grau!), mas o ritmo com que essa jornada é contada, sempre sendo impulsionada. Tem a energia que vem faltando inclusive a similares gringos, como Um Filme Minecraft, que é refém de uma marca; independente do livro, sua adaptação sobrevive a uma revisão particular porque, acima de tudo, essa é uma peça de desenvolve bem tudo o que se propõe. 

Da construção do quarteto de protagonistas, passando pela descoberta do vilão, indo até a doçura desenvolvida por Ailton Graça, e os atores adultos no geral, O Gênio do Crime não deixa nada a dever a qualidade de material que o produtor Márcio Fraccaroli, a bordo da Paris Filmes, desenvolveu na franquia Turma da Mônica, por exemplo. Isso ainda é aliado a pelo menos dois profissionais parceiros de Kleber Mendonça Filho que estão no projeto: o diretor de arte Thales Junqueira e o fotógrafo Pedro Sotero, que não realizam aqui trabalhos menos esmerados. São peças fundamentais para que o filme tenha um padrão elevado e que isso não seja colocado de maneira artificial em cena. 

Mas o arremate que provoca o diferencial, como sempre, é o humano. O Gênio do Crime não seria metade do que é, sem a distinção de valores elencados pelo roteiro e que atravessam o elenco de maneira sutil. Em tempos de uma masculinidade tóxica que sai da realidade para o audiovisual (vocês estão acompanhando Pela Metade, minissérie sobre o assunto na HBO?), a amizade e as inimizades, que o filme espelha refletem uma realidade sem floreios, mas com carga de humanidade indelével. Não é sobre ‘bullying’, ou sobre traições juvenis, mas sobre como isso está em tela, provocando o debate sem a carga depressiva que o cinema empregue no tema. Nenhum assunto deveria ser proibido, e sim a maneira irresponsável como cada elemento é exposto, independente da faixa etária pretendida. 

A configuração desses valores está impressa nas telas através de um elenco onde só existem acertos. Mas é fácil falar de atores como o já citado Graça, ou Marcos Veras, Rafael Losso, Douglas Silva, Estevam Nabote ou casal de pais de João, o líder dos protagonistas, vividos por Fafá Rennó e Thelmo Fernandes; todos já são previamente ótimos. O encontro com a Turma do Gordo é que faz de O Gênio do Crime algo especial: Breno Kaneto, Samuel Estevam, Bella Alelaf (que já esteve ótima em Um Pai em Apuros) e Francisco Galvão, principalmente, por estar nessa liderança, conduzem o filme por um terreno sempre seguro. O quarteto transforma a sessão em uma experiência ainda mais deliciosa, e, entendendo as leis de um mercado do qual o filme faz parte, a torcida pelo sucesso de bilheteria tem motivo duplo. Em primeiro lugar, porque O Gênio do Crime é bom o suficiente para merecê-lo, e em segundo, porque será incrível reencontrar esses personagens numa ideia de continuação. Que venha! 

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