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“Baixa Sociedade” extrai o que a dramaturgia de Juca de Oliveira tem de mais engraçado

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Sem um pau pra dar no gato, o mecânico Otávio, orgulhoso dos estudos politécnicos que fez no seu tempo de solteiro, não pode ver as garrafas de leite do vizinho dando sopa que vai até sua porta e rouba umas goladas. Faz o mesmo com o jornal e com a revista “Caras” do sujeito. É por essa via – sem noção, de simancol zero – que somos apresentados ao personagem central da hilária versão (carioca) 2026 do texto “Baixa Sociedade” (1979). O sujeito, com seu caráter ensaboado, decola em cena à força da usina de risos chamada Luiz Fernando Guimarães.

Otávio é, certamente, a tradução mais popular da fauna de aves de rapina que povoam a dramaturgia que o paulista de São Roque João Juca de Oliveira Santos (1935-2026) desenvolveu de 1979 até sua morte, no último 21 de março, em paralelo ao êxito como ator. O João Gibão de “Saramandaia” (1976) estabeleceu prestígio (e sucesso de bilheteria), escrevendo crônicas de costumes cujo senso moral se aproxima das falências utópicas do país numa gangorra financeira. 

Seu “Caixa Dois” (1997) chegou a virar filme, pelas mãos de Bruno Barreto, ao escancarar as práticas ilícitas do nosso empresariado. “Às Favas com os Escrúpulos” (2007) foi, para parte polpuda da crítica, a obra-prima de sua escrita, num trânsito entre falcatruas e adultérios, retratado na ótica de uma ricaça traída (encarnada pela diva Bibi Ferreira).     

“Baixa Sociedade” é parte dessa sua genealogia de abutres em busca de carniça. Juca sempre olhou para o “jeitinho brasileiro” numa posição distanciada, sem julgamento prévio, à luz de um panóptico a partir do qual pode ser abordado (e criticado) sob múltiplos prismas, desde a lógica da “sobrevivência a qualquer custo” até a mirada da ganância. É nessa multiplicidade de sensos que o encenador (e também ator) que Pedro Neschling posiciona o Otávio de Luiz Fernando ao dirigir (com destreza espartana) o texto, comprovando o quão atualíssimo ele segue. 

Sem trabalho há quatro meses, desde que a empresa automotora onde obrava lhe demitiu sem dó, lenço ou documento, Otávio se beneficia como pode das benesses de morar num prédio onde todos os moradores parecem cumpridores de seus deveres. O wi-fi que usa é do apê ao lado. Seu filho, Otavinho (Paulo Mathias Jr., um ricochete em cena, sem perder uma deixa), não aprova as atitudes do pai, que não se deixa abater pelas censuras. 

Um desabafo autocritico (“Eu te eduquei errado”) reestrutura o convívio de Otávio com sua cria no momento em que o pai, preocupado com o futuro de seu guri, sugere o retorno dele à sua ex, Ana Maria, uma bilionária interpretada (luminosamente) por Isabella Santoni. Para isso é preciso escantear a atual namorada do rapaz, Ritinha, vivida por Bruna Trindade com um gestual cartunesco, digno de personagens de mangá, com uma graça contagiante. 

Neschling faz do apartamento de Otávio um microcosmos para uma descida aos infernos dos valores da dignidade. É um terreno endividado e sem lei, onde prevaricações são permitidas. A cenografia dionisíaca da peça nos entrega um lar de classe média falida no qual os limites da ética deixaram de ser balizas para as relações sociais. 

A crítica social está hospedada aí, a ferver. Mas o molejo de Luiz Fernando mantém a fervura no ponto preciso, sem deixar escapar uma só brechinha para arejar essa análise kantiana da cobiça, na qual o dinheiro é o imperativo categórico da venda de (quase) toda e qualquer alma. A comedia nota cem “Alta Sociedade” (1956), de Charles Walters (1911-1982), com sua trinca de estrelas (Bing Crosby, Grace Kelly e Frank Sinatra) salta à nossa cabeça como alusão, numa parentela adocicada com o que Neschling, num trabalho de maturidade nos entrega. O filme celebrava o amor ao falar da ditadura da bufunfa. Juca de Oliveira inverte esse tabuleiro. Essa montagem extrai o que ele tinha de mais sociológico… e de mais hilariante. 

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