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Dia D: Steven Spielberg retoma a ideia de invasão extraterrestre

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Todos os protagonistas de Steven Spielberg são pessoas comuns que precisam lidar com o extraordinário de uma hora para outra. Nesse sentido, esse personagem também representa o espectador que nem sempre tem ciência do que está vendo, mas precisa juntar peças de um quebra-cabeça e se manter íntegro, até perceber que não há mais espaço para o ceticismo, essa regra é mantida em Dia D, seu novo e pomposo filme que resgata uma fatia de sua filmografia deixada de lado nos últimos 20 anos: a invasão extraterrestre. Vindo de um dos seus maiores êxitos recentes junto a crítica, considerado por muitos como um de seus melhores filmes, esse filme novo divide com Os Fabelmans um caráter pessoal, mas aqui temos Spielberg olhando para si como cineasta, e revisitando sua bela carreira. 

Ou seja, nesse sentido, há um período de revisitação que o cineasta começa a promover no cinema recente, ou melhor, desde Amor, Sublime Amor, sua versão para o musical da Broadway que também encantou o público. Mas enquanto a relação do gênio era esmiuçada no contexto familiar em sua fatia anterior, aqui Spielberg decanta a própria carreira. Nenhum problema aí, inclusive como é feliz vermos os maiores do nosso tempo (Almodóvar com Natal Amargo, Cronenberg com O Senhor dos Mortos, etc) revisitarem a própria criação com tanta paixão, e tanta fúria. O vencedor do Oscar por A Lista de Schindler não se repete, assim como seus colegas, e faz desse momento mais uma possibilidade de realizar algo que ninguém elabora, a princípio, ser um norte para ele: cinema político. 

No passado, seu olhar para a chegada entre nós de viajantes interplanetários abriu portas para o olhar para a Guerra Fria (Contatos Imediatos do Terceiro Grau), ou a queda das Torres Gêmeas no 11 de Setembro (Guerra dos Mundos). Vivendo na era da disseminação da desinformação como palco das discussões entre nações – e internamente em cada uma delas, nós inclusive – Dia D não promove qualquer disfarce para sua argumentação a respeito dos malefícios sociais das ‘fake news’. Em nome dessa tentativa diária de falsear fatos, propagar inverdades utilizando as redes sociais, fugir do compromisso com a verdade descaradamente em discursos mentirosos acerca de proteção, o mundo afunda em certezas inventadas e temas que não são debatidos, porque ainda se encontram escondidos. 

O roteiro de David Koepp, com argumento do próprio Spielberg, é exímio em criar uma bela parábola acerca dessa movimentação escusa de bastidores para, uma vez mais, nos encantar com – pasme! – essa mesma sensação de descoberta de um mundo desconhecido. Paralelo ao que está em cima da mesa politicamente, a alegoria filmada em Dia D é uma prova de que não há idade ou bagagem excessiva que apaguem o talento original, e intacto. Toda uma geração do cinema está em curso de despedida por conta de sua idade (Spielberg completa 80 em dezembro), e a maioria deles se recusa a diminuir a expressão de beleza e encantamento que extrai das lentes. Esse é mais um caso de autoria e liberdade artística e estética que nos mostra o quão automático é um mundo habitado por Duna Wicked

Porque não está nas entrelinhas, por exemplo, a construção do arco dramático de Maggie Fairchild, por exemplo. Em desempenho de camadas que se aprofundam a cada nova cena em um corpo avassalador provido por Emily Blunt, a personagem parece instrumento de ações alheias desde seus movimentos iniciais, servindo a um propósito de enredo; ledo engano. Esse é um dos muitos pontos de excelência do roteiro, que não se apressa para ler Maggie e colocá-la no centro da reflexão, isso é uma situação que precisa ser apresentada no momento certo. O que Blunt realiza assim que sua engrenagem pede, é de profunda humanidade, entrega e uma incontida certeza da própria fragilidade, física e emocional. Ao seu lado, grandes atores como Josh O’Connor, Colin Firth e Colman Domingo, assistem a momentos raros de entrega visceral. Ainda assim, não tirem os olhos deles, principalmente do protagonista de Sing Sing; Domingo tem aqui um dos maiores momentos de uma carreira cercada deles. 

Especificamente no que concerne mise-en-scene, Dia D mostra por mais de um momento, porque Spielberg é quem é, e porque não há qualquer decréscimo em sua carreira. A referência própria está em cenas sutis, e em momentos que nem todo o espectador verá, como a chegada noturna da polícia em torno de Daniel Kellner, defendido por O’Connor; ali, a distorção narrativa da cena de Melinda Dillon sendo abduzida em Contatos Imediatos do Terceiro Grau é clara – dessa vez, a abdução é feita por humanos. Em outro momento envolvendo o ator de Rivais, a chegada de uma comitiva policial ao rancho onde ele está escondido rende um plano-sequência que não é um fetiche estético apenas, mas uma demonstração bem clara de domínio cênico e do emprego bem utilizado da máquina hollywoodiana para a realização de algo efetivo, que produz impacto. O próprio desfecho do filme, que muitos considerarão alongado, cabe na visão de cadência e da montagem da tensão propriamente dita, que é diluída progressivamente para o avanço da emoção. 

Em plena excelência do ofício, Spielberg elabora ainda esse pensamento acerca do que nossas lembranças podem ou não significar, e o quanto governo algum precisa preocupar-se com o bem estar de uma sociedade já moldada para suprimir mágoas e frear possíveis mergulhos para o horror. Isso está impresso em todo o terço final da personagem de Blunt, e também as lacunas emocionais que vazam da presença breve de Courtney Grace em cena. A jovem atriz, que vive a âncora do jornal da emissora em Nova York, consegue em pouco tempo de cena nos assombrar com seu próprio assombro. É uma gama de sensações que, de fora da projeção, é fácil observar onde nos leva o cinema de Steven Spielberg, que sabe manejar uma montanha-russa como poucos, e prova mais uma vez que suas 80 primaveras não geraram cansaço os estagnação. O contrário dessas coisas chama-se Dia D

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