- Publicidade -

Labirinto dos Garotos Perdidos traz proposta ousada ao que se convenciona olhar para uma narrativa tradicional

Publicado em:

Há cerca de 7 meses atrás, quando Labirinto dos Garotos Perdidos estreou na Mostra de São Paulo, uma atmosfera onírica, de sonho transformado em pesadelo, de uma angústia natural do mundo de hoje às pessoas LGBTQIAPN+ quanto a segurança e aos modelos de negociação de afeto, era anunciado. Agora, o novo filme de Matheus Marchetti chega aos cinemas como a aposta inicial da plataforma Filmicca na distribuição de conteúdo original e inédito, e seu lugar nas discussões cinematográficas da temporada se farão prementes pelo cenário que se formou. Com as estreias de Obsessão Backrooms (e seus respectivos fenômenos de bilheterias), o filme tem mais do que uma experiência única de rememoração de gêneros do cinema para encontrar lugar de debate. 

Marchetti é um muito jovem realizador cujo lugar no circuito de cinema ainda não tinha sido aberto, tendo as sessões de seus ótimos Verão Fantasma As Núpcias de Drácula restritas ao circuito de festivais. Com Labirinto dos Garotos Perdidos, o jovem chega a dois públicos: aquele que já conhece Marchetti dos fóruns de nicho e aos espectadores que vai encontrá-lo pela primeira vez. Trata-se do primeiro dos muitos filmes brasileiros de temática ‘queer’ a estrear no Mês do Orgulho, e o mais importante é que todas essas informações divididas até aqui são extra-fílmicas, não anulam a principal análise e nem joga sombra sobre suas qualidades infinitas. A base de muito do que vemos aqui vem de uma descoberta particular do público em se conectar com o cinema marginal do país nos anos 1970, e com uma fatia específica do horror, o ‘giallo’ italiano. 

Além disso, nos valores contemporâneos de Labirinto dos Garotos Perdidos, temos a ameaça constante de um ‘serial killer’ que mata jovens gays na capital paulistana quando estes se aventuram por encontros sexuais na noite escura. Na prática, o jovem Miguel aceita um convite de outro rapaz com quem flerta pela internet, para se hospedar em sua casa, em zona nobre de São Paulo. Após uma clara decepção romântica de ambas as partes, MIguel sai pelas ruas em nova busca, na intenção de, entre outras coisas, encontrar uma fonte de afeto – além do sexo de maneira mais prática. A partir de sonhos do protagonista e da realidade lúgubre que o autor imprime em seus filmes, mergulhamos profundamente (ou ao menos aos que se deixarem levar pela ambientação que escapa gradativamente do naturalismo) em um sonho de horror, onde o sangue propositadamente artificial nunca nos deixa esquecer sua porção de Cinema, e de que fontes estão sendo servidas na tela. 

Como sua filmografia pregressa já prenuncia, Marchetti é um cineasta que se banha com vontade em um estetização da imagem cuja função é povoar a visão com potenciais sensações de vertigem, desconforto e alucinação – e, vejam só a coincidência, ele captura assim o espírito do circuito no momento, com os títulos de Kane Parsons e Curry Barker em clima de fenômeno. Mas em Labirinto dos Garotos Perdidos, em determinado ponto o filme faz questão de não mais nos situar dentro da sua realidade, ou de uma porta aberta para o imaginário abstrato. O que estamos vendo é a verdade de quem? Ao menos o espectador tem o direito a um respiro dentro da máquina de fumaça? E a resposta a todas as perguntas segue sendo o mistério, e um orgulho danado de promover o desconhecido. 

Ainda assim, o desejo é latente nas imagens – e um baita viva para as produções contemporâneas, que filma o sexo gay sem pudor, mas carregado da volúpia que não precisa ter medo de existir. Assim como em Um Estranho no Lago, quando não existir nem mais o tesão, ainda estaremos vivos? Nesse lugar então, a referência do gênero imortalizado por Dario Argento e Lamberto Bava é ainda mais berrante, porque esse era um cinema onde o sujeito ‘queer’ até tinha presença, mas nenhuma voz. O mesmo pode-se dizer do cinema marginal da boca do lixo, onde o tipo gay era ridicularizado por muitas vezes. Ou seja, Labirinto dos Garotos Perdidos é uma resposta moderna sobre como fazer nossas pequenas revoluções, com nossos corpos e nossas histórias, promovendo elegia ao cinema e também reconstruindo a presença faltante de outrora.

De beleza inquestionável, e uma narração hipnótica de Tuna Dwek, Matheus Marchetti é um sério candidato a um posto do qual pleiteiam também Fábio Meira, Eduardo Nunes, Karol Maia, Guto Parente e Gabriel Martins: o de realizador do ano. Com sua verve direcionada ao cinema de gênero que convoca diretamente a um grito de conclamação às minorias, Labirinto dos Garotos Perdidos é um filme que aposta no entendimento subjetivo para abrir passagens por caminhos transitados pouquíssimas vezes. A comunicação estabelecida com os meninos da Surto e Deslumbramento, coletivo de cineastas de olhar cítrico e agudo para o mundo gay, lê que existe a necessidade de outras formas de abordar a vida LGBT – porque ainda fora, e não absolutamente dentro, ácida, arriscada, absolutamente histérica e ainda assim humana e cheia de delicadeza?

Labirinto dos Garotos Perdidos é, sem dúvida, uma proposta de ousadia ao que se convenciona olhar para uma narrativa tradicional, mas não pelo que ela rompe em sua estrutura, mas pela maneira como escolhe olhar para a mesma. A convenção do qual existe uma cartilha a ser cumprida, aqui é abolida tão habilmente, que os olhos menos atentos não perceberão outras fontes mais cuidadosas em cena – como os irmãos Grimm. Marchetti se prova uma metralhadora de ideias que não cessará enquanto não estiver regurgitando cada novo aspecto a respeito das dores e delícias de ser um jovem contador de histórias, atento a outros contadores de suas ficções. O criador alimenta a criatura, e é alimentado de volta pelos novos conceitos de fábula que precisam ganhar voz. 

Rota Cult
Rota Cult
Redação do site E-mail: contato@rotacult.com.br

Mais Notícias

Comentários

DEIXE UM COMENTÁRIO

Please enter your comment!
Please enter your name here

Nossas Redes

2,459FansGostar
216SeguidoresSeguir
125InscritosInscrever
4.310 Seguidores
Seguir
- Publicidade -