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Mestres do Universo: A animação da Era Ploc merecia mais harmonia

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Existem adaptações que parecem destinadas a viver eternamente no imaginário dos fãs. Cercados por rumores, Mestres do Universo volta aos anos 80 que o Brasil viveu.

Se você é do tipo que chora só com a lembrança da canção “Peludinho”, do “Chaves”, ou na recordação do “Ursinho Pimpão”, tem fortes chances de se comover com a música cantada pelo Gorpo e pela feiticeira Dree Elle, a fim de salvar Etérnia. Aquela que dita: “O Bem vence o Mal/ Espanta o temporal/ O azul o amarelo/ tudo é muito belo/ O Bem vence o Mal/ O fraco fica forte/ E vence até a morte/ Isso é o que ele faz”. Nessa letra reside a chave para saber lidar com “Mestres do Universo”, um filme que tinha tudo para ser épico, mas se desperdiça. 

Calma! Ele diverte. Uma operação cinematográfica de US$ 170 milhões (algumas fontes dão US$ 200 milhões) que faz um dublador brasileiro, Garcia Júnior, ganhar status de estrela por todo o país, não pode ser ignorado. Nem merece. É um filme empolgante e alimenta a nossa nostalgia. O problema são os encostos que o quizilam. 

Sim, aparece o Gorpo em Mestres do Universo, quando menos se espera. Sim, tem uma certa Princesa do Poder, a dar as caras num momento estratégico, quase de venda, a assegurar a abertura de uma nova franquia para o cinema neste momento em que os super-heróis de HQ deixaram de ser uma receita infalível. Aliás, vai ter gente desmilinguindo com a aparição dela, além disso, evitemos spoilers e evocações ao Corujito.  

Sim, há uma alusão ao Mestres do Universo com Dolph Lundgren, que a gente via na “Sessão da Tarde” dos anos 1990, com Frank Langella a berrar: “Sou mais do que um homem. Sou mais do que a vida. Eu sou Deus!”. E era um berro com o gogó de Isaac Bardavid, titã da arte de dublar que serenou no início da década. 

Mestres do Universo é, certamente, elétrico à pampa, ao resgatar o universo (e não necessariamente) o ethos da série de desenhos animados que grudou o Brasil na telinha da Globo na década de 1980. Não, o projeto de adaptar He-Man para as novas gerações não abre mão do ativo Ploc – o clima oitentista – que trouxe “Karate Kid” e “Top Gun” de volta, ao mesmo passo que ele abre um veio infantojuvenil de fantasia que só se viu igual (mas sem a mesma poesia) no recente “Minecraft”, com Jack Black, fenômeno comercial de 2025. 

A gente só não precisava ficar tomando palestrinha no quengo, sobre machulência, ao longo de duas horas e 20 minutos. Isso enfraquece, pois artificializa um engenho de dramaturgia que aposta na magia e se pavimenta sobre um desenho próximo das fábulas de Esopo. Não há razão para se contestar os debates contra o sexismo (e, nele, a praga do machismo), pois essa conversa salva vidas. O problema é como ela aparece. A canção de Dree Elle e Gorpo já lacrava: “Harmonia, é o segredo que traz alegria/ Só se vence quando há harmonia/ Harmonia e amor”. 

 De harmônico, no âmbito da reflexão crítica, o novo longa-metragem do diretor Travis Knight (do marromeno “Bumblebee”) pouco tem. Nota-se uma aflição para se enxertar o roteiro com tiradas abrasivas (e depreciativas) contra toda e qualquer representação da masculinidade, a começar do empenho para se destroçar figuras paternas. 

A própria escolha de nome do herói, que acentua o “ele” (he), é alvo de troça, a se impor uma conexão entre os signos de virilidade com a caricatura do macho man estereotipado. Tem uma troça constante também com o visual de torso nu de He-Man que dá preguiça de tão repetitiva, a nível quinta série. O que poderia vir como ironia sutil se descortina em dinâmica expositiva, quase didática, o que torna o deboche artificial.

Além disso, tem um outro problemaço na escolha do tom do Esqueleto. Jared Leto (ganhador do Oscar por “Clube de Compras Dallas”) é um ator gigante, e desfila sua grandiosidade ao desconstruir toda a vilania diante si ao ensaiar a criação de uma espécie de Dr. Evil (o inimigo do Austin Powers) de capuz. O problema é que ele erra o tônus de seu personagem. De novo, voltemos ao Gorpo: “Harmonia é o segredo que traz alegria”. O que fica é desarmônico. É quase um daqueles vilões dos Trapalhões vividos por Carlos Kurt. 

A gênese de “Masters of the Universe” não sustenta essa sanha desconstrutiva. Aliás, o que se via na linha de bonecos que a Mattel pôs à venda em 1982, a explorar os signos da ficção capa & espada, tipo bárbaros vs. magos, era uma micareta multicor. Nas cores, tanto a fotografia quanto a direção de arte do longa de Travis pecam, ela é bruxuleante em demasia, ocre além da conta.  

No meio disso tudo, faltou repensar o que os bonequinhos guardavam em sua estrutura de plástico cheia de cores. A estrutura dramatúrgica que calçou aquelas action figures (brinquedos) só nasceu em 1983, na série de desenhos da Filmation. Em 130 episódios, lançados até 1985, o seriado mapeou o mundo de Etérnia, com suas feitiçarias, sua monarquia paradoxalmente democrática e seu inimigo jurado, o já citado Esqueleto (agora dublado por Luiz Carlos Persy). 

No Brasil, essa pérola chegou em 1984 e ficou em destaque em nossas manhãs até a alvorada da década de 1990. A “She-Ra” estava ali, lado a lado. Na televisão, a realidade paralela de Etérnia ganhou vida pelas leis da mais lúdica fantasia. Por vir da animação, Travis Knight consegue desafiar a lógica realista com eficácia. Seu maior acerto é assumir uma veia infantojuvenil das mais molecas. Veia essa que não se harmoniza com todo o ativismo que ele abraça. 

Na trama, o Príncipe Adam (encarnado pela força da natureza Nicholas Galitzine) retorna à Etérnia, depois de 15 anos preso nos EUA, para salvar seus compatriotas do Esqueleto. Por culpa de uma maquinação desse ferrabrás, ele passou a adolescência longe de seu lar. 

Nesse périplo de volta para casa e de intimidade com a Espada do Poder, o genial Idris Elba se impõe como o dono do trecho inicial para si no papel do Mentor, pai da guerreira Teela (Camila Mendes, de DNA brasileiro) e estrategista bélico. Depois, a festa fica na conta de Galitzine, que reina garboso. Na hora do “Eu Tenho a Força!”, a gente fica de joelhos e volta a ser miúdo.

Por fim, um destaque de peso em cena é a Maligna interpretada por Alison Brie (de “Glow”), que dá um jeito de criar uma alquimia com o Esqueleto de Leto. Ainda no elenco, merece destaque Jon Xue Zhang, brilhante sob a armadura do Aríete. Mas ninguém brilha mais do que Galitzine, ainda mais dublado por Garcia Junior.  

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