- Publicidade -

Museu Histórico Nacional recebe exposição sobre a história da alimentação na China antiga

Publicado em:

O Museu Histórico Nacional recebe a exposição “Sabores da Tradição: história da alimentação na China antiga”, nela o visitante percorre milhares de anos da civilização chinesa a partir de uma de suas expressões mais fundamentais: a comida. São mais de 120 objetos provenientes do Museu Nacional da China, em Pequim, ocupando as galerias temporárias do Museu Histórico Nacional.

A exposição parte da comida e da bebida para recontar a história de uma civilização. Cada peça do acervo é um fragmento de como os chineses pensavam o mundo, organizavam o poder, cultivavam o prazer e negociavam com o sagrado. Para a curadoria, a alimentação é o domínio da vida humana onde mais dimensões da cultura se encontram ao mesmo tempo. Para o público brasileiro, a mostra é uma porta de entrada para uma China que vai muito além do que o cotidiano costuma mostrar: a que cozinha, ritualiza, filosofa e encontra beleza à mesa em cerâmicas, bronzes e porcelanas de até dez mil anos de idade. A mostra foi apresentada no Museu de Etnografia de Budapeste, em 2024, e nos Museus do Kremlin, em Moscou, em 2025.

Cada núcleo constrói sobre o anterior, abrindo o percurso à medida que o visitante avança, revelando escolhas cuidadosas de curadoria do Museu chinês. Vale conferir com calma. Aliás, a exposição cobre um arco que vai da pré-história agrícola ao ano de 1911, quando se encerra a dinastia Qing e, com ela, a China imperial. Da China antiga às transformações do século XX, “Sabores da Tradição: história da alimentação na China antiga” conta com cinco núcleos temáticos, cada um iluminando uma camada distinta da relação entre os chineses e sua cultura alimentar.

Conheça os núcleos:

O primeiro núcleo, Uma alimentação variada como base da nutrição, parte de uma afirmação arqueológica: a China figura entre os berços do cultivo do arroz e do milheto, e é também uma das regiões mais antigas do mundo na domesticação de animais como o porco e a galinha. Por volta de quatro mil anos atrás, chegaram ao território chinês, vindos da Ásia Ocidental, o carneiro, o gado bovino, o cavalo e o trigo, ampliando progressivamente a diversidade alimentar de uma civilização que já era rica antes mesmo desses contatos.

Os textos de parede desse núcleo evocam o Clássico Interno do Imperador Amarelo, obra de referência da medicina e do pensamento chinês antigo, para sintetizar essa filosofia alimentar: “Os cinco grãos nutrem, os cinco animais enriquecem, os cinco frutos auxiliam e os cinco vegetais complementam”. Uma dieta fundada na variedade, mas também numa ideia de equilíbrio que atravessa toda a cultura chinesa clássica.

O núcleo seguinte, Alimentos cozidos e bebidas quentes, lida com uma das mais antigas fronteiras simbólicas da humanidade: a que separa o cru do cozido. Para os antigos chineses, o domínio do fogo era uma questão técnica, mas, sobretudo, um marco civilizatório. As dezenas de técnicas culinárias desenvolvidas ao longo dos milênios, vapor, fervura, salteado, fritura, assado, cura, fermentação, constituíram um repertório sem paralelo. Dois métodos são considerados invenções propriamente chinesas: o cozimento no vapor e o salteado no wok.

Além disso, o núcleo também dedica espaço às bebidas quentes. O vinho aparece aquecido, prática que tem uma razão técnica: o calor elimina o metanol, tornando a bebida mais segura. E o chá comparece em toda a sua complexidade. Há um vídeo sobre o método do chá batido, uma das formas mais antigas de preparo, que pouco tem a ver com a infusão em saquinho que o Ocidente popularizou. Objetos das dinastias Tang e Song e trechos de poemas de Bai Juyi, um dos maiores poetas da literatura chinesa, aparecem ao longo deste núcleo.

No terceiro núcleo, Reverenciar o Céu e cumprir os ritos, a alimentação ganha dimensão política e espiritual. Na China antiga, os ritos tinham sua origem na comida e na bebida. As peças em bronze apresentam uma gramática do poder: a quantidade e o tipo de recipientes que um senhor feudal exibia em seus banquetes determinavam sua posição na hierarquia social.

O tripé ding, presente em exemplares de diferentes períodos, talvez seja o símbolo mais eloquente dessa transformação: de vasilha de cozinha a emblema do poder real. Os sinos de bronze que acompanhavam os banquetes da nobreza, o jogo de arremessar flechas em vasos que animava as reuniões letradas, as pinturas murais com cenas de banquetes da dinastia Han – tudo mostra como comer, na China antiga, era um ato profundamente político

O quarto núcleo, Deleitar os olhos, apaziguar o espírito, desdobra outra dimensão dessa cultura: a recusa em separar funcionalidade e beleza. Os artesãos e artistas chineses produziram utensílios de mesa que eram, ao mesmo tempo, ferramentas cotidianas e obras de arte. O percurso reúne cerâmicas pintadas do Neolítico, bronzes da Antiguidade, porcelanas imperiais de refinamento extremo, objetos em ouro e prata da dinastia Liao e peças em jade de diferentes períodos. A curadoria parte do entendimento de que a experiência de comer é também sensorial e estética, e que a beleza dos recipientes intensifica o prazer da comida.

Por fim , o quinto núcleo, Beleza compartilhada em harmonia, fecha o percurso com a dimensão do intercâmbio. A cultura alimentar chinesa nunca foi fechada sobre si mesma. As nozes e a pimenta-do-reino chegaram pela Rota da Seda. A batata e o pimentão vieram das Américas. O arroz, o chá e o tofu migraram para o mundo. A porcelana chinesa influenciou as artes decorativas europeias e, ao mesmo tempo, a China incorporou objetos de ouro, prata e vidro de fabricação europeia. É neste núcleo que aparece o capítulo sobre o Jardim Botânico do Rio de Janeiro: a gravura dos agricultores chineses trazidos por Dom João VI, plantando as primeiras mudas de chá no Brasil, é um dos momentos mais próximos do público carioca, uma espécie de “carinho” curatorial incorporado ao percurso.

Os 121 objetos, certamente, abrangem um arco de aproximadamente dez mil anos. A diversidade de materiais é um dado em si: cerâmica, bronze, porcelana, ouro, prata, jade, pedras preciosas, laca e madeira. Vale notar que o que está sendo apresentado é o que ficou na China. A porcelana que chegou à Europa pela Companhia das Índias era produção de exportação, feita para consumidores que não conheciam o padrão dos melhores ateliês chineses. O acervo aqui reunido é de outra categoria.

Entre as peças de maior interesse histórico estão os vasos rituais em bronze das dinastias Shang, Zhou Ocidental e do período das Primaveras e Outonos, alguns com mais de três mil anos. Nesses objetos está inscrita a gramática do poder ritual chinês: o ding para cozinhar e oferecer alimentos, o you e o gu para armazenar e servir vinho, o gui e o xu como recipientes de comida para cerimônias. Exibir determinado número de ding e gui à mesa era protocolo: os utensílios diziam, antes de qualquer palavra, a posição social de quem estava sentado ali.

“Sabores da Tradição” chega ao Brasil no contexto do Ano Cultural Brasil-China 2026. A realização conta com a articulação institucional do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), vinculado ao Ministério da Cultura, que coordenou as tratativas brasileiras e o Museu Nacional da China. Em contrapartida, o Museu Nacional da China apresenta, em Pequim, “O Brasil de Portinari”, exposição dedicada à obra de Candido Portinari.

Para o diretor do MHN, Cícero de Almeida conta, ” O Museu celebra a história da alimentação na China, mas também a possibilidade de construir pontes culturais capazes de ampliar horizontes e estimular novas formas de compreensão do mundo contemporâneo. “Que esta mostra seja, para o público brasileiro, uma experiência de descoberta, encontro e reflexão”, enfatiza.

SERVIÇO Período: 27 de junho a 11 de outubro / Local: Museu Histórico Nacional Endereço: Praça Marechal Âncora, s/nº, Centro / Funcionamento: Quarta a domingo, das 10h às 17h (último acesso às 17h e encerramento às 18h) / Entrada: gratuita

Rota Cult
Rota Cult
Redação do site E-mail: contato@rotacult.com.br

Mais Notícias

Comentários

DEIXE UM COMENTÁRIO

Please enter your comment!
Please enter your name here

Nossas Redes

2,459FansGostar
216SeguidoresSeguir
125InscritosInscrever
4.310 Seguidores
Seguir
- Publicidade -