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‘Você leu os comentários?’: Diana de Hollanda investiga diferentes formas de violência

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No livro “Você leu os comentários?”, a autora carioca Diana de Hollanda traz uma proposta inédita: trabalhar discursos de violência das redes como arquivo poético. Com 46 poemas criados a partir de comentários, mensagens diretas, transcrições, tutoriais e outros materiais retirados da internet, o livro investiga como a linguagem digital organiza formas de atenção, violência, poder e pertencimento.

Ainda em junho, o livro também estará disponível em formato digital e acessível, em ePub, com venda pela Amazon. A obra conta com coordenação editorial de Luiza Leite, capa e diagramação de Leticia Quintilhano e posfácio de Danielle Magalhães.

A obra parte de uma provocação que atravessa todo o percurso: o que estamos lendo quando lemos os comentários? E o que eles revelam sobre a época em que vivemos? Em vez de tratar essas falas como ruído ou apêndice da internet, Diana as desloca para o campo da poesia. A autora recorta, organiza e justapõe materiais recolhidos das redes, preservando a dureza do que encontra, mas alterando seu regime de leitura.

Sempre me impressionou o quanto os comentários podiam ser mais violentos do que os próprios posts, gerando mal-estar tanto em quem publica quanto em quem lê. Em 2018, durante as eleições, isso virou uma ideia de projeto literário, mas só foi para o papel anos depois“, afirma Diana.

A violência atravessa o livro em diferentes intensidades e registros, mas nem sempre aparece explícita. Dividido em cinco seções, Algoritmo, Machosfera, Chacina, Bilionários e Mensagens Diretas, a obra constrói uma cartografia poética do presente digital.

Em Algoritmo, aparecem a economia da atenção, o vício em dopamina, a promessa de relevância e os mecanismos de condicionamento das plataformas. Em Machosfera, surgem discursos misóginos e jargões de comunidades masculinas com retóricas de supremacia. Em Chacina, comentários celebram execuções, naturalizam mortes e transformam a violência de Estado em espetáculo. Em Bilionários, o foco recai sobre a meritocracia e a conversão da riqueza em virtude moral ou espiritual. Já Mensagens Diretas mergulha no espaço íntimo das DMs, onde ameaça, assédio e perseguição aparecem sem a mediação pública do feed.

É justamente porque existe um modus operandi nesse ambiente que essas cinco seções surgiram naturalmente do próprio material. A linguagem se repete, os padrões retornam e fica evidente que certas falas não são casos isolados, mas sintomas de violências estruturais”, explica Diana.

O procedimento de montagem é central quando se pensa na potência do livro. Ao retirar esses fragmentos do fluxo acelerado das plataformas e levá-los para a poesia, Diana suspende a lógica da rolagem infinita e cria outra duração para a leitura. O que passaria despercebido como comentário, tutorial, frase motivacional, opinião ou mensagem privada passa a ser lido como parte de uma lógica social mais ampla.

“O livro não inventa falas, mas escuta o que já circula e, justamente por estar tão naturalizado, deixa de ser visto. Nas plataformas, esse material é consumido em série, dentro de uma arquitetura que banaliza e anestesia. A desaceleração da poesia quebra esse automatismo. O trabalho está na curadoria, no corte, na repetição e na combinação desses discursos, que passam a formar unidades de leitura, devolvendo alguma capacidade de espanto”, afirma.

 O lançamento será dia 23 de junho de 2026, terça-feira, às 19h, na Livraria da Travessa, em Botafogo. O evento contará ainda com uma roda de conversa com Diana de Hollanda e as autoras convidadas Claudia Roquette-Pinto, Gabriele Rosa, Milena Martins Moura e Talita Tibola, em torno do tema “Poéticas do Cancelamento: misoginia digital e escrita como resistência”.

Rota Cult
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Redação do site E-mail: contato@rotacult.com.br

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