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“A Metamorfose”, baseado na obra de Franz Kafka, faz temporada no CCBB

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Kafka consegue como ninguém descrever o que perturba a existência moderna porque incute às metáforas um peso concreto, não estabelecendo comparações de “como” ou “tal qual”, mas deformando a realidade que se apresenta, aproximando definitivamente as pessoas das bestas que em suas paranóias mais sombrias elas suspeitam ser, e assim, sem cerimônias, Kafka dá start a seu texto mais célebre, “A Metamorfose”, entalhando na mente do leitor a imagem do jovem Gregor Samsa, um vendedor ambulante que acorda um belo dia transformado em um enorme e repulsivo inseto.

Essa nova adaptação para os palcos, criação do coletivo Anêmona Teatro, se passa em uma Cidade de Praga de clima tropical atlântico. Logo, é e também não é a história que tanta gente conhece. Escrita e dirigida por Jopa Moraes, abre mão da narração em terceira pessoa e dramatiza os acontecimentos da novela, potencializando as demais personagens e construindo ações físicas que dêem contorno a seus dilemas. Mantendo-se fiel a ordem de acontecimentos da trama, a dramaturgia ressalta o humor desconcertante de Kafka, tantas vezes escondido por trás de sua fachada austera.

Essa é a história da família Samsa tentando sobreviver e se manter unida perante uma irremediável metamorfose. Por um lado, há carinho pelo jovem, principalmente por parte da irmã mais nova, mas há, também, uma constante e crescente sensação de mal-estar com sua presença. Para o pai, a mãe e a irmã, a conta parece não fechar. Sem o dinheiro que ele trazia para a mesa, o esforço para manter viva e segura a colossal barata que agora é Gregor vai pouco a pouco deixando de fazer sentido. 

Em tempos em que se debate no Brasil as consequências da escala 6×1, a história desse clássico parece falar diretamente com a gente. Afinal, quando Gregor Samsa acorda de sonhos intranquilos e percebe sua transformação, o primeiro pensamento que cruza sua mente é que precisa ir trabalhar, mesmo que ainda nem saiba comandar corretamente suas patinhas. Com sua prosa seca e impiedosa, o escritor de Praga é taxativo — para o jovem caixeiro-viajante não existe e nem existirá vida além do trabalho. 

No jogo proposto por Jopa, o palco é terreno de materialização das imagens perturbadoras criadas por Kafka. Através de um figurino que mistura indumentária e manipulação de bonecos, concebido pela figurinista Dimi Rumbelsperger e construído pelo aderecista Alex Grilli, o monstruoso inseto aparece de forma concreto aos olhos do público. Vivido por Vitor Schei, explorando a gama do arsenal físico do ator, somos expostos à rotina perturbadora de Gregor, descobrindo como habitar sua nova carapaça. Assim, o choque recebido pela família (Larissa de Paula, Nayane Ficher e Rafael Nasária) aparece sem enfeite nenhum, fugindo dos simbolismos que aproximam a história de um melodrama. O verdadeiro julgamento se dá na cabeça de cada um, que, presenciando as escolhas impossíveis que as personagens são obrigadas a tomar, talvez possa se perguntar, como sugere Clarice Lispector: “eu sou um monstro ou isto é ser uma pessoa?”

Serviço: Temporada: 16 de julho a 2 de agosto de 2026 (quinta a domingo, 19h) Local: Teatro III – CCBB Rio de Janeiro (Rua Primeiro de Março, 66 – Centro/ Ingressos:à venda na bilheteria e no site bb.com.br/cultura / Classificação: 14 anos | Duração: 80 minutos

Rota Cult
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Redação do site E-mail: contato@rotacult.com.br

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