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‘A Odisseia’ é uma convulsiva alegoria política da barbárie nossa de toda a História

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Pode-se definir “A Odisseia” como a mistura de “Apocalypse Now” (1979) com “Ben-Hur” (1959). Ambas as referências são épicas. Ambas falam da manutenção da ordem na lógica da dominação política. A primeira é uma alegoria colonialista. A segunda, é um acerto de contas. Nas duas, há heróis alquebrados, a derramar sangue para que o caos cesse (ou finja dar trégua). Em “A Odisseia”, o Odisseu, de Matt Damon (em atuação colossal) é a mistura de ambos.  

Como se fosse o espelho de “Oppenheimer” (vencedor do Oscar de Melhor Filme de 2024), “A Odisseia” reflete, como seu irmão mais velho, a luz do fardo histórico sobre seu protagonista. O longa-metragem que oscarizou Cillian Murphy partia de um homem que enxergava nas ciências matemáticas a única forma de equalizar o Mundo até o momento de essa crença fabricar a bomba atômica. Depois da fabricação, vinha a morte na forma de um cogumelo atômico que ceifou multidões. 

Agora, a revisão colossal que o mesmo diretor, o inglês Christopher Nolan, faz da obra poética de Homero, alça voo a partir de um homem que, parar equilibrar sua pátria, Ítaca, foi ao mar. Navegou para fazer guerras, matando; pondo sua tripulação em risco; sendo oportunista; cegando um monstro na crueldade, para viver, testando as fronteiras que a linguagem impõe à barbárie. As águas, certamente, só o fizeram culpado. Aliás esse pesar o aproxima do físico que resolveu a II Guerra com um explosivo genocida.         

Essa proximidade entre os personagens exulta a identidade autoral de um cineasta que parece mais maduro do que nunca, às voltas com um elenco de celebridades no qual Robert Pattinson e John Leguizamo são os que mais sobressaem num coletivo de talentos. A direção de fotografia de Hoyte van Hoytema joga com trevas, sombras, luz solar e efeitos visuais sempre em prol da encantaria. Temos um épico que sabe ser realista, em sua sanha estrategista digna de uma partida de “War”, mas se abre bem ao mágico.  

Jennifer Lame, na montagem, encontra o espaço certo para dispor presente e passado, delírio e realidade num mesmo tabuleiro, onde a trilha sonora do músico Ludwig Göransson amplia a tensão de cada jogada. Poucas vezes, quiçá só no subestimado “Tenet” (2020), Nolan soube usar as cartilhas da ação com tamanha maestria, dialogando com os códigos da tradição capa & espada. Sua produtora, a Syncopy, faz jus a cada tostão do orçamento de US$ 250 milhões em suas mãos. 

Vemos Odisseu ir oceano adentro para invadir Tróia na pança oca de um cavalo GG de pau. Na sequência, embaralham-se feitos, fatos e lendas, conforme ele narra à mulher que o tirou de um estado de quase morte, a ninfa Calypso (Charlize Theron), as angústias que sente. Angustia não lembrar o que fez e não saber o vazio que o esburaca a alma. Noutro canto do mundo, lá em Ítaca, o filho desse (torto) herói, o jovem Telêmaco (Tom Holland, em estupenda atuação), ouve do deficiente visual Eumaeus (Leguizamo, em seu melhor trabalho) causos sobre o quão bravo foi o pai.

O roteiro de Nolan entrega, na medida certa, tudo o que as narrativas de ordem épica precisam para vingar no imaginário de quem as escutas, a começar por um “guardião” da Pólis, ou seja, o representante legal do Estado, que requer coragem, sabedoria e temperança. Odisseu acessa essas três virtudes ao largo de um calvário que Nolan esculpe como uma grande alegoria do presente… da Era Trump… retratando a “palavra” como a única forma de imortalizar ações que podem desarmonizar uma sociedade sob vetores da violência.     

Não por acaso, “A Odisseia” chega às telas cercada por um estatuto de acontecimento, qual fosse um novo Segredo de N. Sra. De Fátima a ser revelado aos mortais. Depois de se oscarizar com a delícia “Oppenheimer”, Nolan contou com a ajuda de sua mulher, a produtora Emma Thomas, para fazer da Syncopy numa espécie de selo de excelência capaz de desafiar as convenções da indústria. 

A decisão de reservar as primeiras sessões de imprensa apenas para críticos especializados, excluindo influenciadores digitais, sintetiza um posicionamento artístico raro em Hollywood: antes de ser um produto de consumo imediato, seu cinema reivindica debate, reflexão e permanência. Poucos realizadores contemporâneos conseguem lançar um blockbuster como quem apresenta uma tese.

Essa dimensão autoral, surpreendentemente, extrapola as telas. Enquanto cinemas europeus promovem retrospectivas em cópias IMAX 70 mm de obras como “A Origem” (“Inception”), “Dunkirk” (“Dunkirk”) e “Interestelar” (“Interstellar”), livrarias do mundo inteiro multiplicam estudos dedicados ao cineasta. A edição especial da revista britânica “Empire”, lançada para acompanhar a estreia de “A Odisseia”, revisita toda a sua filmografia, desde sua estreia em longas, com “Seguinte” (“Following”, ganhador do troféu Tiger no Festival de Roterdã, na Holanda, em 1998), reunindo depoimentos de colaboradores e admiradores como Denis Villeneuve. 

No Brasil, esse interesse ecoa no lançamento de O Poder Esmagador do Cinema – Christopher Nolan e a Tecnologia IMAX, de Pablo Savalla, prova de que seu cinema já alimenta uma fortuna crítica comparável à dos grandes autores do século XX. Nada disso é casual. Em Cannes, onde participou de um encontro dedicado a Stanley Kubrick em 2018, Nolan resumiu a própria ética de realização ao afirmar que “a melhor maneira de aprender cinema é filmando”. 

Desde “Following”, rodado entre amigos, até este colossal investimento de US$ 250 milhões, permaneceu fiel à ideia de que o espetáculo precisa nascer de uma visão pessoal de mundo. É justamente essa coerência que distingue “A Odisseia” da maior parte dos épicos contemporâneos: por trás da grandiosidade técnica e da musculatura industrial, pulsa o olhar de um autor interessado menos em efeitos especiais do que nas cicatrizes morais deixadas pela História. 

Não por acaso, há uma víbora a destilar peçonha na figura de Antínoo, burguesinho de Ítaca que se comporta como fura-olho do senhor daquela nação, com o sonho de se casar com a rainha, Penélope, que Anne Hathaway interpreta com fleuma. Essa cascavel foi confiada a um Pattinson com ares de velhacaria, que almeja ter Poder sem fazer esforço. Cabe a ele o desenho arquetípico da vilania num espetáculo cinematográfico que desafia rótulos.   

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