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O Convite: Olivia Wilde refina seu olhar com sofisticação na direção

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A diretora Olivia Wilde vem de uma experiência traumática na direção. Após a bem sucedida estreia de Fora de Série, as expectativas extrapolaram os limites do bom senso em Não se Preocupe, Querida!, que desapontou a maior parte de quem o conferiu. Quando estreou no Festival de Sundance deste ano, O Convite foi apontado como uma recuperação de sua autora; estavam todos certos. Remake de um longa espanhol (Sentimental, sucesso de Cesc Gay), Wilde dá um nó no que foi feito pelo original e mostra sua evolução – em todos os sentidos. Uma das possíveis grandes cineastas do futuro, Wilde não se contenta em realizar um filme de câmara honesto, o que faria todo sentido mediante os contras; suas pretensões estão expostas em cena e ela as catapulta para resultados ainda mais felizes. 

O Convite

São apenas 4 atores em cena durante a maior parte do tempo. Em um cenário praticamente único, a sala de um apartamento é devassada por uma cozinha, que é entrecortada brevemente por passeios por banheiro e quartos; por isso, filme/drama de câmara. Tradicionalmente, essa é uma herança do teatro e de suas adaptações; títulos como 12 Homens e uma SentençaUm Bonde Chamado Desejo Quem Tem Medo de Virginia Woolf? margearam o cinema com essa proposta de tensão claustrofóbica. O último citado é uma inspiração para O Convite, onde dois casais acabam por estabelecer um conflito a partir de um jantar, é destrinchado a partir de uma base cômica assumida, mas que não é uma seta definida e contínua. Existem curvas que direcionam essa narrativa para a riqueza do que é apresentado. 

Ao invés de escolher filmar essa dinâmica de uma forma tradicional, escalando os planos-contraplanos para criar o jogo entre os tipos, Wilde mostra porque é uma promessa praticamente cumprida. Sua câmera é fluida, invade espaços e percorre saídas por todas as possibilidades. Enquadra seus atores a partir de pontos de vista pouco habituais, e revela parte de suas personas através de espelhos e reflexos; o resultado não é acompanhado pelo personagem, mas sim pela autoria de ideias. Os enquadramentos escolhidos não são óbvios – um exemplo, é uma situação de duelo que ela margeia entre si mesma e Seth Rogen, posicionando-os em polos divergentes da tela. Parece simples, mas O Convite refina seu olhar de sofisticação para longe do roteiro; quem o define é a lente de Wilde. 

O roteiro de Rashida Jones e Will McCormack (que já tinham escrito juntos o lindo Celeste e Jesse Para Sempre) preserva a estrutura original, mas enche de verve particular os diálogos da obra. De embocadura muito precisa, o texto de O Convite é um passeio por um universo facilmente reconhecível. São dois casais que já ‘vivemos’, ou conhecemos: ambos se amam, mas estão em momentos diferentes – um é o amor transformado (no caso aqui, em mágoa e ressentimentos), o outro é o novo amor, de fogo nada brando. Basicamente tudo o que é dito tem identificação imediata, e aproximação singela: aquelas pessoas somos nós, nossos amigos, nossos irmãos, nossos vizinhos. E o ritmo que a direção de atores emprega a esse quarteto torna o jogo mais requintado, embora tudo esteja ao nosso alcance. 

Além de Wilde e Rogen, o elenco é completado por Penélope Cruz e Edward Norton, e difícil é mensurar o trabalho maior; na dúvida, o mais óbvio é entender que esse é um grupo coeso. Ainda que Cruz consiga completar os espaços com sua postura, com o desenvolvimento de uma personagem com tanta eloquência, os três restantes são magnéticos por igual. Norton é quem tem o trabalho de corpo mais evidente, é um ator que se movimenta por completo, e exibe uma performance que vai além do que diz. Wilde é um sopro de vitalidade aguda, e Rogen tem a solução do filme tomada para si. A partir dele, o filme entra em uma reta final inesperada pela mudança de tom. 

Não é que estejamos diante de uma comédia onde o humor é deixado de lado, pelo contrário. O Convite tem um desenho muito sutil, onde passamos com frequência em mais de um gênero na mesma cena. Existe leveza no horror descrito, existe um peso em cada gargalhada dada, ou seja, o filme não busca conforto, as ambições da produção estão em lugar pouco acessado, onde o nervosismo é capaz de abrir o leque de opções do tom. Wilde e sua trupe acabam mostrando que não há história que não tenha sido já contada, e sim trabalho coletivo que ainda não tenha sido apresentado. Dessa reunião vista, surge um filme que representa ainda mais do que o necessário. 

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