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“Eu não serei o ovo que você quebra” traz ao Rio de Janeiro o que o mundo insiste em silenciar

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De 1º a 26 de setembro de 2026, o Rio de Janeiro recebe “Eu não serei o ovo que você quebra: sobre nascimento, o corpo e as evidências que ele carrega”, que integra o Evidence, festival internacional realizado pelo Fisher Center LAB em associação com o Center for Human Rights and the Arts at Bard. O projeto é conduzido pela instituição internacional TAP (Temporary Art Platform), sob a direção artística de Amanda Abi Khalil, em parceria com o Instituto Comadre. Entrada franca em todas as atividades.

O programa se desenrola ao longo de quatro semanas – chamadas de Respiros, numa referência à inspiração profunda em quatro tempos do trabalho de parto – e reúne uma exposição coletiva, intervenções em espaços públicos, intervenções em espaços públicos e mídia exterior por toda a cidade, sessões de cinema, uma residência artística, um workshop sobre metodologias forenses e o lançamento de uma publicação. O Evidence acontece simultaneamente em quatro cidades: Nova York, Rio de Janeiro, Cidade do México e Túnis.

A curadora à frente da edição carioca é Amanda Abi Khalil, curadora independente nascida em Beirute e fundadora da TAP, com formação em sociologia da arte. Para ela, o nascimento é uma experiência que o corpo segue carregando muito depois do parto – um lugar em que as violências do sistema deixam marcas e as relações de poder se manifestam. “Cristine Takuá, parteira Maxakali, nos contou que entre os Yanomami todas as mulheres são parteiras, que caminham até o rio para dar à luz sozinhas; precisamos apenas reaprender a escutar o corpo. Cuidar do momento mais absoluto da criação é cuidar da própria sociedade, enfrentando a violência em torno da gravidez, do parto e do pós-parto, e suas ligações com a violência de Estado e policial, ao mesmo tempo em que se abre espaço para todas as formas de maternar: não binárias, trans, solo por escolha e também as não-mães.”, diz Abi Khalil. A proposta curatorial se ancora no conceito de matripotência, cunhado pela socióloga nigeriana e pesquisadora de gênero Oyèrónkẹ́ Oyěwùmí: a profunda autoridade material e espiritual que emana do ato de trazer a vida ao mundo e sustentá-la.

Respiro 1
O festival abre em 1º de setembro na Casa Comadre com Reparto, exposição coletiva com curadoria de Gabriela Davies e Maíra Marques na Casa Comadre, no Humaitá. A mostra reúne artistas de diferentes países e gerações para refletir sobre os processos e escolhas envolvidos na possibilidade de gerar e cuidar da vida, e sobre as muitas formas de entender o nascimento e a maternidade para além da reprodução biológica. Entre os artistas participantes estão Adriana Varejão, Mona Hatoum, Tracey Emin, María Magdalena Campos-Pons, Joana Hadjithomas, Celeida Tostes, Mônica Ventura e Claudia Casarino. A abertura é na terça-feira, das 17h às 21h, e a exposição permanece em cartaz até 28 de novembro.

Na tarde de 2 de setembro, a Cinemateca do MAM recebe, às 16h30, a sessão de Vermelho Bruto (2022), de Amanda Devulsky. A exibição terá a presença da diretora, que participa de um debate ao lado de Mariana Pimentel, especialista em Práticas Estético-Políticas na Arte Contemporânea e no Ativismo no Brasil. O filme narra as histórias de quatro mulheres que se tornaram mães ainda na adolescência, num Brasil que dava seus primeiros passos rumo à democracia. Ao acompanhar essa transformação política em paralelo à passagem abrupta dessas mulheres para a vida adulta e a maternidade, dentro de seus espaços domésticos, a obra se constrói no cruzamento entre arquivos pessoais e imagens contemporâneas.

Respiro 2
Em 11 de setembro, das 11h30 às 16h30, o MAM Rio recebe o workshop Corpos e Territórios: mães e mulheres produzindo evidências para a luta por justiça, sobre metodologia forense e a produção comunitária de evidências, voltado à violência obstétrica, à violência de gênero e aos direitos reprodutivos no Brasil — tomando como caso o de Maiara de Oliveira, gestante baleada durante uma operação da Polícia Civil no Complexo da Maré. O encontro conta com dois painéis e a ativação Orquestrar o acaso, da artista carioca Anna Costa e Silva, e reúne Redes da Maré, Mães de Manguinhos, Casa das Mulheres da Maré e a parteira, pesquisadora e ativista Marilanda Lima. “Quero construir uma ponte entre a violência obstétrica e a violência policial”, explica Abi Khalil. “A violência do sistema se manifesta desde os hospitais onde as crianças nascem até a brutalidade policial direta.”

À noite, a Cinemateca do MAM recebe uma sessão dupla: Regarde, elle a les yeux grands ouverts (1982), de Yann Le Masson, documentário sobre mulheres que lutaram pelo direito ao aborto na França, às 18h, e Why I Never Became a Dancer (1995), de Tracey Emin, às 20h.

Respiro 3
No dia 18 de setembro, Laura Lima apresenta Dopada (1997) na Estação Carioca do MetrôRio, a partir das 16h. A obra, da série Homem = Carne / Mulher = Carne, tem uma mulher dormindo profundamente, envolta em um traje de crochê. O trabalho transforma seu corpo em uma escultura viva, suspensa entre o cuidado e a vulnerabilidade. Há décadas, Laura Lima desenvolve uma prática que atravessa a performance, a escultura e o corpo, com obras em Inhotim, no MAM-SP e em coleções internacionais.


Respiro 4
Em 23 de setembro, o Capacete, na Glória, recebe o lançamento da publicação do festival às 18h, seguido da exibição de Yamo (2011), do diretor libanês Rami Nihawi — filme em que o realizador busca, ao lado da própria mãe, as memórias de uma infância marcada pela guerra civil.

Em 26 de setembro, Dora Selva conduz no Solar dos Abacaxis a oficina “Todo mundo tem uma pelve”, sobre o corpo pélvico, seus movimentos, sua potência e sua história. O encontro começa às 15h e tem duração de 1h.

Além disso, ao longo de todo setembro, outdoors, painéis digitais e outras superfícies exteriores espalhadas pela cidade recebem uma intervenção de Franziska Pierwoss, artista alemã radicada em Berlim, em colaboração com Marilanda Lima. A iniciativa parte dos dados da pesquisa Nascer no Brasil — o maior estudo já realizado sobre parto e nascimento no país — e traz informações de interesse público sobre violência obstétrica, práticas de cuidado e direitos na assistência ao parto. O objetivo é tomar o espaço normalmente reservado à publicidade e preenchê-lo com outra coisa: conhecimento público.

Serviço: Eu não serei o ovo que você quebra: sobre nascimento, o corpo e as evidências que ele carrega

  • Festival Evidence: TAP — Temporary Art Platform em parceria com o Instituto Comadre
  • Rio de Janeiro, 1º a 26 de setembro de 2026 — Entrada franca em todas as atividades
  • Curadoria geral: Amanda Abi Khalil
  • Interlocutoras curatoriais: Maìra Marques e Gabriela Davies (Instituto Comadre), Marilanda Lima (parteira urbana), Danielle Makhoul (curadora associada)
Rota Cult
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Redação do site E-mail: contato@rotacult.com.br

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