- Publicidade -

Gus Van Sant recria caso real que paralisou os Estados Unidos

Publicado em:

Gus Van Sant surgiu há 40 anos, seu filme se chamava Mala Noche e era um retrato cru a respeito da jovem cena queer envolvendo também as vivências latinas para desaguar as intenções de um cineasta que surgiu à margem. Seu filme seguinte, Drugstore Cowboy, o tornou conhecido mundialmente: venceu 4 Independent Spirits e muitos outros prêmios, mostrando uma assinatura que seria mantida em seus filmes seguintes, até ele estrear seu maior sucesso: Gênio Indomável, um filme com a sua marca em absoluto, mas que furou a bolha e lhe deu a primeira indicação ao Oscar. O que aconteceu posteriormente a Van Sant foi somente ascensão, com a vitória de uma Palma de Ouro pelo caminho (por Elefante). O que então tornou Van Sant um figurante da indústria hoje, mesmo na seara indie que o formou? Refém por um Fio talvez responda naturalmente alguns questionamentos. 

O filme é baseado em eventos reais, sobre um crime acontecido em 1977, no estado de Indianápolis. Sentindo-se lesado por um grande escritório de corretagem, ele marcou uma reunião com o dono da empresa, onde somente o filho apareceu. Após uma sonora discussão, ele faz o rapaz como refém para mostrar ao país os crimes que estão sendo cometidos de maneira sistemática pelo governo e pelo Estado. Estamos diante então de um thriller de suspense policial com conteúdo político forte, que se faz valer através das qualidades do seu realizador para homenagear um tempo e um recorte de Cinema, mas também um gênero muito específico e um período igualmente específico. Poucos cineastas conseguiriam travar tantas camadas de percepção puramente cinematográficas, e ao mesmo tempo ser fiel a si mesmo. 

Van Sant transitou durante boa parte de sua carreira por um viés mais ou menos comercial, sendo bem sucedido quando geralmente se colocava mais abertamente sincero, sendo em qualquer que fosse o registro. Em Refém por um Fio, ele mostra uma profunda admiração a cineastas como Sidney Lumet e Alan J. Pakula, mas sem emular qualquer outro colega que não a si mesmo. Suas proposições acabam por identificar o cineasta e a elaboração estética do qual ficou conhecido, e nesse veículo a ideia é aproximar-se tão vividamente do que está sendo filmado, que não haveria outro formato a ser fiel que não a da granulação na imagem, portando sua obra de clara identificação com o cinema da Nova Hollywood, principalmente na forma. É um exercício de estilo como tantas outras vezes o cineasta já passeou, pelo horror ou pelo melodrama, aqui se aprofundando nas tensões características de um formato muito comum à sua época. 

Nesse sentido, colocar um ator cheio de investigação pessoal como Bill Skarsgard à frente do elenco é uma opção que já denota sua proposta. Em cartaz nos cinemas de forma igualmente brilhante em A Morte de Robin Hood, o irmão mais jovem de Alexander continua sendo o mais peculiar dos artistas da família, muito distante de pai e irmão. Ele assegura para si trejeitos e uma corporificação que precisam de diretores muito bem preparados para domar suas capacidades fora de controle; Van Sant é esse cara, porque há décadas lida com atores e tipos na seara do complexo. O retrato deles, ator e autor, para um ser humano tão cheio de lados, que trilha igualmente os predicados de herói e anti-herói, mantém o personagem dentro de uma zona cinzenta ideal para que Refém por um Fio torne-se maior do que em tese seria. 

A fotografia de Arnaud Potier, por exemplo, em sua evocação de um trilho próprio dos anos 70, nos conduz a uma viagem no tempo, que também se apresenta nas suas camadas jornalísticas. Porque Refém por um Fio midiatiza toda sua narrativa até o espectador não encontrar diferença entre assistir a essa ficção sobre eventos e uma tentativa de reprodução dos mesmos em caráter televisivo. Soa ininteligível na descrição, mas na prática é como se fôssemos tragados para uma linha do tempo paralela. Isso também é traduzido pelo trabalho de arte e figurino, que não tem medo de setorizar o filme em outro recorte estilístico. Acaba sendo a prova de que, prestes a completar 75 anos, Gus Van Sant não perdeu em nada o frescor de realização para um gênero que ele ainda não tinha explorado. 

Ao final, o quadro triste é que, mesmo entregando filmes esteticamente arriscados e ambiciosos como Refém por um Fio, Gus Van Sant ainda é um cineasta indie dos Estados Unidos. Logo, ele encontra os mesmos obstáculos que Brian DePalma, Abel Ferrara, Michael Mann, e tantos outros cineastas que, apesar do talento e dedicação, não foram capazes de agraciar Hollywood continuamente com potes de ouro. Por isso, seguem tentando financiar seus projetos de maneira quase marginal e, para isso, a produção encontrou resultado acertado. E talvez essa seja a sina de Van Sant, ele mesmo um desajustado do sistema filmando outros de maneira contínua há 40 anos. A vontade de continuar assistindo-o se renova ao final dessa sessão especificamente, por termos a certeza que nenhuma verve foi perdida. 

Mais Notícias

Comentários

DEIXE UM COMENTÁRIO

Please enter your comment!
Please enter your name here

Nossas Redes

2,459FansGostar
216SeguidoresSeguir
125InscritosInscrever
4.310 Seguidores
Seguir
- Publicidade -